Meninice ao contrário

Sexta-feira, 21 Outubro, 2022

Napoleão Mira

Escritor

Entro no barbeiro, esse antro varonil onde se fala sobretudo de mulheres, política e futebol e não necessariamente nesta ordem.
Na cadeira ao meu lado, um cliente anafado e já entradote introduz o tema da nossa finitude. Vaticinava ele que um homem devia de ter sempre vinte anos e, já agora, ser possuídor do conhecimento que agora tem.
Quando um homem começa com este tipo de delírios temporais é sinal de que já está no inverno da vida ou em vias de lá entrar. É desse tema que hoje vos venho falar: da velhice!
De cada vez que afirmo ser velho, regra geral os que me rodeiam contradizem-me, dizendo que ainda estou aí para as curvas; que os sessenta de agora são os cinquenta de ontem; que a esperança de vida é cada vez maior; que os avanços na medicina operam verdadeiros milagres… e por aí a fora.
De facto, quando me olho ao espelho, noto que a embalagem já não corresponde ao conteúdo. Se a vida for um presente (que o é!), devo dizer que o que sinto deteriorado é o papel onde esta vem embrulhada.
De resto, a criança que em mim reside continua a ser a mesma alma desassossegada e sonhadora. E se de quando em vez olho para trás e revisito o que vivi, quando chego ao apeadeiro dos dias de hoje concluo que tem sido uma viagem e peras.
Ó se tem!
Nasci numa casa sem chão no tempo da ditadura, vivi uma revolução, assisti a convulsões sociais e até passei por uma pandemia. Tenho a felicidade de pertencer à geração que viu acontecer a maior transformação tecnológica de que há memória. Fui, e sou, espectador dos maiores avanços da humanidade, dizendo-se até que esta evoluiu mais nos últimos 20 anos do que desde o tempo de Gutenberg (1400-1468) até finais do século XX. Ter a felicidade e a consciência de que estamos a viver tempos de grande transformação é preocupante, mas ao mesmo tempo fascinante.
Casei (duas vezes), tive filhos, realizei-me profissionalmente, escrevi livros, editei discos, fiz (e faço!) espetáculos e continuo a desafiar-me a cada dia que passa, mas estou a ficar velho e começo a pensar na frase do meu companheiro de barbeiro com que iniciei este desabafo convosco.
Na verdade vivo dias de ambiguidade. O animal intuitivo que sempre me habitou continua com a eterna atração pelos abismos, mas também começa a agigantar-se-me nas vísceras um outro que me segreda ser tempo de parar. De pairar. De simplesmente observar. De me deixar fascinar, de regressar metaforicamente ao útero mátrio e viver esta meninice ao contrário.
Diz mais um dos provérbios ao ocaso da vida dedicados que “um homem velho, é uma ruína pensante”. Não me desagrada de todo esta imagem de ruir pedra a pedra, ao invés de perecer passo a passo.
O meu companheiro de barbeiro, entretanto escanhoado, por certo tão preocupado com esta fase da vida quanto eu, à saída (que reparei fazer com alguma dificuldade locomotora!) ainda aventa mais uma tirada proverbial:
– O que eu sei é que “ninguém quer ser velho, mas ninguém quer morrer novo”. E com esta me vou.
Sorrio para dentro em forma de concordância, enquanto aquele outrora jovem desaparece no dobrar da esquina. Ainda lhe quis responder em tom de repto, mas fiquei-me pelo pensamento: “A velho poucos chegam, mas de velho ninguém passa!”

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