Mão de obra: a falta dela

Quarta-feira, 17 Novembro, 2021

José Francisco Encarnação

Presidente da Assembleia de Freguesia da União das Freguesias de Almodôvar e Graça dos Padrões

Estão muito em voga atualmente as notícias da falta de mão de obra, principalmente nas indústria hoteleira e na agricultura. Vou cingir-me ao trabalho no nosso Alentejo.

É um facto que existe falta de mão de obra em diversos setores da nossa sociedade. Na indústria hoteleira, nas obras, públicas e particulares, na agricultura. Essa falta, no nosso distrito, é de uma forma muito acentuação notada na agricultura. De tal forma que se recorre a empresas de trabalho temporário, a imigrantes, principalmente oriundos de países asiáticos, como a Índia, o Nepal, o Paquistão, etc. No final de 2020 a taxa de desemprego no país situava-se em 6,8%, baixando para pouco mais de 6% no final do terceiro trimestre de 2021. Felizmente, após a pandemia que nos assolou e ainda continua presente, estes dados são animadores.

Mas levanta-se a questão… se os números de desempregados estão a baixar, como se podem queixar as indústrias e empresários de falta de mão de obra?!

Penso, na minha humilde opinião, que dar deve essencialmente a dois fatores. À desertificação do nosso Alentejo, que vê cada vez mais e mais a sua população jovem a procurar outros caminhos e outros destinos para seguir a sua vida e também, e não menos importante, à política salarial usada. Fatores estes intrinsecamente ligados. Felizmente, cada vez mais os nossos jovens atingem um grau de aprendizagem e capacidades escolares que os deixa em condições previligiadas para poderem optar pelo futuro que desejam. Ora se as oportunidades nos seus locais de nascimento, onde querem ficar e desenvolver as suas capacidades não lhes aparecem, logicamente que obrigatoriamente irão procurar noutros sítios. À menor taxa de natalidade junta-se assim a falta de oportunidades para os jovens mais qualificados. Apesar de todo o esforço feito pelas autarquias, que logicamente não podem absorver todos, as nossas mais valias vêem-se obrigados a procurar o seu futuro noutros locais. Dizem vocês, caríssimos amigos, que sim mas que ainda existem os que não seguem os estudos, os que entram mais cedo na vida activa. E com toda a razão. Aí, passamos para o outro ponto que no início citei, a política salarial utilizada! Salvo raras exceções, os nossos empresários recorrem a colaboradores temporários, umas vezes sazonais, outras apenas para algumas tarefas específicas. Uma ou um jovem alentejano que queira iniciar a vida, vai sempre à procura de um emprego que lhe garanta um mínimo de estabilidade. Todos sabemos que, nos tempos que correm, os empregos para toda a vida já não se usam, mas trabalhar um mês ou dois e depois ficar sem saber quando o voltará a fazer, convenhamos que de estável pouco tem… A juntar a isso, os salários praticados! Paga-se o mínimo, exigindo o máximo! E quando os locais justam não se querem sujeitar a essa imposição, aí recorre-se à mão de obra importada!! Mão de obra que se sujeita às mínimas condições de habitabilidade, de trabalho, de salário. Imigrantes que, à semelhança dos portugueses que nos anos 50, 60, se aventuraram a sair do seu país para fazer, com baixos salários e sem condições de vida, o que os locais não queriam, e que ainda hoje são exemplos de ótimos funcionários onde continuam a laborar. Homens e mulheres que se sujeitam a tudo para conseguir melhorar as suas condições nos países de origem. Homens e mulheres que vivem e ganham abaixo do limite mínimo e se sujeitam a um trabalho quase escravizante. Não estou a criticar com isto os nossos empresários. Apenas utilizam aquilo que está ao seu dispor. Claro que existem alguns oportunistas que se aproveitam da situação! Estou sim a criticar as políticas de apoio existentes, as políticas de controlo, as apostas feitas na mão de obra barata. Porque simplesmente penso que o nivelamento não deve ser feito por baixo! Todo o que trabalha deve receber condignamente!

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