Ler e contar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Nas Alcarias, freguesia da Conceição, concelho de Ourique, o tempo é quieto e sereno. Toda a aldeia é uma almofada de silêncios bons onde o horizonte vem poisar a cabeça para descansar dos ruídos do mundo. As barras das casas são molduras que guardam a memória da cal. As chaminés, de arquitectura senhorial, são obras de arte que levantaram os homens do chão e do pó das coisas banais e os aproximaram mais do firmamento.
Nas Alcarias moram vinte e uma pessoas. Nas Alcarias quase todas as pessoas têm rugas que a vida lhes lavrou no rosto e nas mãos. Os mais novos saíram, foram à procura de um sentido moderno para a vida, foram ao encontro de ambições, fugiram ao destino bucólico, mas cruel das planícies e das ruínas.
Os mais velhos ficaram porque a idade e a alma os agarrou à terra. Ou, se calhar, dizendo melhor, foram eles que se quiseram agarrar àquela paz. E por escolha, ou por destino, ali estão sentados à soleira das portas, moendo mágoas, enchendo a boca de ar fresco, telefonando aos filhos e aos netos, vivendo um dia de cada vez com um brilho de geada nos olhos.
Mas há os que chegaram, os que não são das Alcarias, nem sequer do concelho, nem sequer do Alentejo, são os que voltaram costas à falta de espaço, ao desassossego, ao tempo inquieto e frenético.
Descobriram que as manhãs nascem felizes do ventre dos restolhos e que os grilos cantam para a noite adormecer.
A professora Ana Vaz veio à procura de espaço dentro de si. Quis redefinir a sua existência. Achar o vagar. Veio à procura de pardais que lhe explicassem os segredos das planuras. Deu aulas em Aljustrel e depois reformou-se. E quis continuar a viver onde os dias são maiores porque os relógios se inebriam do cheiro da hortelã da ribeira e dos poejos.
A professora Ana, acabadas as aulas de Português e Francês, sentiu necessidade de retribuir a calma que aquela gente boa lhe tinha dado e então decidiu abrir uma biblioteca. Para Ler e Contar.
É uma casa térrea de barras azuis imitando o céu. Quando entramos pressentimos memórias penduradas nas paredes orgulhosas de taipa, descansando no chão pisado pelos pés imensos do tempo. São duas divisões pequenas, aconchegadas, brancas, com estantes azuis prenhes de livros.
Os livros são reservatórios de saber, de romances, de poemas, onde os homens e mulheres e crianças vêm beber quando querem perceber a vida. Os livros vão chegando como beijos de papel enviados pelos amigos. Façam chegar mais. Os endereços são amfortevaz@hotmail.com ou lerecontar2004@hotmail.com

Quem não sabe ler, ouve contar.
São vinte e uma pessoas. Como se fossem cem, como se fossem mil, como se fosse a humanidade toda.

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