João Manuel Covas Lima

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Toda a cidade de Beja o conhece por dr. Nana. Eu conheci-o há 30 anos no Hospital de Beja como o dr. João. Um dos fundadores do hospital e primeiro director clínico. Respeitado como médico mais velho e amigo dos médicos mais novos. Chegando tarde mas sempre a tempo. Sorriso aberto, sentava-se na velhinha sala de radiologia, onde nós colocávamos as radiografias da nossa aprendizagem médica e das dúvidas clínicas, sempre esclarecidas pedagogicamente pelo olhar astuto do mestre. Todos os dias, durante anos, a sala de radiologia era o ponto de encontro dos médicos do Hospital, onde se cruzaram amizades e internatos e se faziam intervalos na aprendizagem entre a história clínica de um doente e uma auscultação pulmonar.
Muitos destes médicos vieram para Beja pela mão do dr. João. Pelo seu entusiasmo em fazer do nosso hospital uma realidade de referência. Para os quais arranjava alojamento e condições de trabalho. Juntando médicos vindos das ex-colónias e da Faculdade de Medicina de Lisboa, a médicos já residentes em Beja. Foram todos esses médicos que deram início ao nosso hospital, simbolizados nas figuras dos drs. Covas Lima, Brito Lança e Horácio Flores. E quando era preciso, punha-se a caminho de Lisboa com colegas que precisassem de resolver algum problema no Ministério. Como foi comigo ao Tribunal de Sintra, como testemunha de defesa num processo estúpido que me moveu um cantor pimba. Perdendo dias de consultório, em troca daquilo que lhe era mais caro. A sua disponibilidade e a sua amizade permanentes, para com todos.
Assim se fez o dr. Nana, que toda a cidade de Beja estima e conhece. Filho de um ilustre médico radiologista alentejano, também ele aqui se radicou depois de formado, semeando pela sua cidade um hospital com médicos de prestígio, dois consultórios de radiologia, a amizade de um médico popular conhecido de todos e a colaboração escrita num dos semanários locais sobre as gentes da cidade, que ele conhecia como ninguém mais.
Encontrámo-nos há alguns dias no Jardim do Bacalhau, onde frequentemente passava pelo café, a caminho do seu consultório nas Portas de Mértola. Sentei-me como habitualmente e falámos das coisas de que ele gostava. Como ia o hospital, que nunca esquecia. Sobre os amigos comuns e o nosso Sporting, que era uma paixão de sempre. E tantas vezes uma frase repetida: “Isto já não é o que era”. A esconder uma mágoa de quem espalhou amizades, erguendo a saúde da sua cidade sem pedir nada em troca, mas mostrando que estava ali, orgulhoso da obra e dos actos.
Convidei sempre o dr. João para os congressos médicos que organizei em Beja. Nunca faltou. E no fim, como só ele sabia, falava do orgulho da cidade em receber os médicos ilustres que nos visitavam. Incentivava a nossa dinâmica de fazer coisas pela cidade. Era sempre um dos últimos a chegar, mas também o último a partir. Adorava a noite, que aproveitava para recordar todas as sementes de amizade espalhadas por uma vida. Como, por exemplo, ter legado a direcção do seu serviço no hospital e dado sociedade no seu consultório ao seu discípulo de sempre, o dr. Manuel Matias, que lhe devolveu em lealdade e trabalho toda uma amizade pessoal e profissional.
Eu não acredito no Céu ou no Inferno. Mas sei que o dr. João foi ter lá acima com o dr. Brito Lança, o dr. João Lam, o dr. Serrano, o dr. Lopes Vasques, o dr. Semedo, o dr. Flores e todos os que lá estão e começaram o nosso hospital. E sei que, em conjunto, todos olham para nós. Vou acreditar que orgulhosos pelo caminho que continuamos e eles começaram. Responsabilidade tremenda que nos deixaram e temos para o futuro.
E, para terminar, deixem-me dizer que na nossa última conversa, eu e o dr. João falámos do que fomos escrevendo sobre alguns destes amigos e colegas. E quando nos levantámos, disse-me meio a rir meio a sério, naquele seu jeito de sempre, “um dia destes vais escrever sobre este teu amigo”. Não tive tempo de lhe responder. E dou comigo a pensar agora, que este médico merece do Hospital e da cidade, aos quais dedicou uma vida, muito mais do que palavras de apreço, de simpatia e de circunstância. O senhor presidente da Câmara e o senhor presidente do conselho de administração da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo não deixarão de distinguir quem se distinguiu como homem, médico e cidadão exemplar da cidade de Beja.

<b>P.S.- </b>Ausente do funeral por estar fora do país, quero enviar uma palavra e um beijo para a D. Fernanda, companheira de uma vida, bem como para os seus filhos.

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