Inverno

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Que se apresse o Inverno porque eu quero aquecer a alma. Que venha o frio e que não haja ninguém na rua. Que desapareça o sol e o azul do céu. Que venham as geadas dormir nos quintais e venham os nevoeiros comer a transparência. Que venha a água toda que o céu já não suporte e venham nuvens escurecer completamente o dia. Que venha cedo a noite sem lua e venha o silêncio sentar-se nas esplanadas desertas. Que venha o vento inquietar as árvores. Que venha o céu trazer facas de luz rasgando o breu e venha o horizonte rebentar em trovões.
Venham que eu não fico triste. Venham que eu não me importo.
E que venha a melancolia sentar-se a meu lado. Que venha a ilusão deitar-se a meus pés e a angústia enrolar-se no meu colo. Que venha a inquietação anichar-se na minha boca com sabor a vinho e o medo adormeça perto da lareira como um gato a ronronar.
Venham que eu abro-vos a porta. Venham que eu preciso de pensar.
E que tudo sopre e gele lá fora enquanto penso. É mais confortável pensar quando chove muito lá fora. Parece que a casa quente é um refúgio, tal como o eram as casas de papelão que fazíamos em crianças para nos protegermos do mundo.
No Inverno puxo fogo à minha identidade de azinho. E é bom crepitar e arder, fazer fumo e cheirar a estevas, ter chama para contentar a existência dos meus cães e ter brasas para fazer torradas espetadas num garfo e depois inventar cinza do cansaço do meu cabelo.
Visto-me de lã e flanela e, por exemplo, entre outras coisas, sinto barrancos a correr dentro de mim, sinto os esqueletos das árvores caducas, porcos pretos enterrados em paraísos de lama, azeitonas vestidas de luto à espera que as esmaguem, lebres vadias, cegonhas que por cá ficam teimosas, ervas daninhas que crescem nas fragilidades do cimento, sinto pássaros encharcados à procura do ninho e sinto bolotas aveladas no meu peito.
Que se apresse o Inverno pois há folhas que não conseguem cair sozinhas. Há folhas a precisarem de um vento que as sacuda e as arranque aos troncos, como mulheres maduras à espera de um homem que não chega. São mulheres de folha caduca esquecidas pelo vento. Sem homem que lhes pegue.
Mesmo que as mãos estejam geladas, no Inverno faz sempre calor dentro de mim. Quanto muito terei cieiro nos lábios ou frieiras nos dedos. O resto é conforto de pão com linguiça assada.
Gosto de sair nas noites geladas porque não há festas populares e eu não tenho que rir.
Vou para lá de todas as casas e o mundo é apenas o escuro, eu e o ar despido. E na contraluz de um candeeiro de rua gosto de ver a minha respiração a dar forma à minha existência contente.

Que se apresse o Inverno porque eu quero conjugar o gerúndio do frio.

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