Interior não “Rima” com PSD

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Arsénio

eleito pelo PS - AM Beja

Pouca televisão tenho visto ultimamente. Menos ainda costumo ver o programa “Prós e Contras”, às segundas à noite na RTP1, por um conjunto de motivos que me escuso de enumerar.
Porém, como não há regra sem excepção, há sensivelmente duas semanas ao fazer um zapping pelos canais televisivos detive-me alguns minutos no dito programa do canal público. Eram convidados Octávio Teixeira, António Nogueira Leite, Basílio Horta e o ministro Vieira da Silva.
O programa decorria dentro da normalidade para o mesmo, apimentado com uma ou outra piada, nem sempre felizes por sinal, do dr. Nogueira Leite relativamente ao primeiro-ministro.
Contudo, o momento mais épico, na minha opinião claro, foi quando o dr. Basílio Horta levantou a questão do investimento que se está a realizar no porto de águas profundas de Sines e sublinhou algumas obras públicas associadas a esse investimento, bem como a outros de carácter público ou privado, de forma a rentabilizá-los e a torná-los mais atractivos. Um dos investimentos públicos citados e que veio associado à discussão foi o do célebre IP8, que ligará, em perfil de auto-estrada, Sines a Beja e que está, como se sabe, adjudicado.
Nogueira Leite, potencial futuro ministro da Finanças de um Governo liderado pelo PSD, mostrou a verdadeira postura dum Governo de centro-direita ao dizer que não faz qualquer sentido uma auto-estrada que ligue Sines a Beja, concluindo com um surpreendente e arrasador: “Mas que mercado tem Beja?”
Ou seja, para o PSD Beja, concelho com pouco mais de 30.000 habitantes, não tendo um mercado consumidor que se considere razoável, deve ficar excluída da possibilidade de ter instrumentos de desenvolvimento sustentado como manifestamente é o IP8. Investir numa terra sem mercado que o justifique? Para quê?
Agora compreendemos melhor por que motivo o Alqueva andou, de início a fim, com Guterres e com Cravinho e nunca andou nos 10 anos de Governo do prof. Cavaco Silva. Está visto e explicado: tantos milhões a investir num território sem mercado!
Por que motivo o aeroporto de Beja andou com Sócrates, mas nunca andou nos governos de Durão Barroso? Investir, ainda que apenas 33 milhões de euros, onde não há mercado? Francamente!
Por que motivo o PS aposta no IP8, como malha de ligação rodoviária entre pólos catalizadores de oportunidades locais e nacionais, e o PSD acha um disparate uma auto-estada entre o litoral e o novo centro estratégico a Sul, Beja? Afinal, Beja não tem mercado!
Esta visão claustofóbica e tacanha do PSD em matéria de investimentos públicos é demonstrativa não só da falta de noção desse partido no que toca à solidariedade do território nacional, como também não entende que essas infra-estruturas, que critica, superam a mera importância local, sendo elas próprias alavancas de desenvolvimento do país.
Esta visão redutora e minimalista demonstra como um hipotético Governo do PSD olharia para o interior do país. Dificilmente em lugares do interior do território haveria lugar à oportunidade. Porque não há mercado. E onde não há mercado o Estado não deve investir. Esta nova lógica (ou nem tanto) do PSD relativamente às zonas mais desertificadas do ponto de vista humano é “elementar, meu caro Watson”, parafraseando Sherlock Holmes.
O que vale é que os baixo-alentejanos há muito que compreenderam isso e como resposta há muitos anos que não elegem deputados do PSD pelo distrito. É que amor com amor se paga e o PSD aqui também não tem… “mercado!”

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