Insónia

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

O futuro, esse animal irracional e desgovernado, acorda-o a meio da noite com o ruído áspero dos seus cascos duros de ansiedade.
O que há-de vir, essa possibilidade de acontecer, essa coisa ainda sem rosto, esse rascunho do sonho, esse projecto mal-amanhado pela pressa do desejo, invade-lhe o quarto, rasga-lhe o sono e pega fogo ao escuro e ao silêncio dos lençóis suados de angústia.
A incerteza do amanhã deita-se logo com ele, mal abre a cama. A arrelia deita-se a seus pés como um cão com açaime, para já domado pelo calmante, domesticado pela necessidade de dormir umas horas. E a princípio dorme, descansa os ossos e a carne moída pelos dias, pesados, doentios, uns atrás dos outros, em que nada se resolve e tudo se adia. Sabe-lhe bem dormir, enganar os nervos, vergar a inquietação, esquecer a crise, os desenganos, as verdades e o peso da existência. Sabe-lhe bem entreter o cérebro com o vazio do primeiro sono. Mas o cérebro, inchado de melancolia, magoa-o como sapatos apertados. Pensar é uma caminhada eterna e a almofada é uma estrada a subir.
As primeiras horas, três ou quatro, são uma anestesia, uma terna ilusão de mãe a fazer-lhe festas na cabeça, uma doce imaginação de massagens nos ombros e no pescoço, uma recompensa dada ao coração pelos sacrifícios de estar sempre ensanguentado, aos saltos, a bater nas pálidas e doridas paredes do peito.
Até parece que o corpo se irá, durante a noite toda, manter inerte, suave, a arranjar forças para enfrentar o dia vil.
Aparentemente inerte, aparentemente suave. Mas eis que as unhas afiadas do desassossego começam a arranhar o pensamento e a consciência, animam as preocupações, acordam as desilusões, abanam as frustrações. Arrancam a pústula da ferida que não cicatriza e a dor volta, a dor desperta porque o cão acordou e já não tem açaime que lhe prenda a raiva dos dentes.
Vira-se para o outro lado. Tenta iludir o destino, respira fundo, ajeita a almofada, limpa o suor, engole o coração que já está à boca. As paredes encolhem, o tecto desce, já não há ar em lado nenhum, é um túmulo que a noite abre a horas mortas. Ergue-se ainda a tempo antes de morrer.
Acende a luz da mesa-de-cabeceira e abre os olhos. De relance, vê os medos a rastejarem para debaixo da cama como cobras feitas de sombra. Por ali ficarão à espreita até que as pálpebras se voltem a fechar.
Concentra-se nos planos, nos projectos, nos objectivos de vida e tenta não pensar, mas o pensamento é a própria cama que ele fez.
A luz acalma-o. Respira melhor. Não treme tanto. Em cima da cómoda, viradas para ele como santos protectores, as fotografias dos familiares dão-lhe um pouco de quietude. Levanta-se, acende as luzes todas, inventa um sol dentro de casa.
São quatro da manhã e a insónia faz-lhe um chá de camomila.

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