Humanidade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

David Marques

Em certos momentos da vida lembro-me de Dogville, da vila sem portas e sem paredes, do filme de Lars von Trier. Lembro-me daquela sensação estranha que aquele filme me transmitiu, a sensação de assistir aos actos brutais que conseguimos praticar, uns contra os outros, enquanto a maioria finge não ver, mesmo que esteja ali, à vista de todos. As personagens desse filme faziam o que a maioria de nós faz todos os dias: refugiavam-se na aparente opacidade das paredes, como se não soubéssemos o que se passa na casa ao lado, entre os nossos vizinhos, próximos ou afastados, como que não querendo admitir os actos cruéis que os seres humanos conseguem infligir aos seus semelhantes. Escudamo-nos numa falsa ideia de respeito pela privacidade dos outros, justificamos a nossa passividade através de uma listagem infindável de desculpas, de tradições, de regras de boa conduta e boa vizinhança.
Em Dogville encontramos Grace, uma mulher explorada por quase todos, violentada por muitos. No mundo de hoje são muitas as mulheres que sofrem como Grace, são muitas as crianças que são exploradas, são ainda muitos os homens escravizados. Contudo, nesta matéria, como em outras, a relação de poder social determina que as vítimas são sobretudo os mais fracos – mulheres e crianças – sendo esta uma realidade sem fronteiras à escala global, mas cujos contornos assumem especificidades locais.
Lembrei-me de Dogville quando assisti a uma pequena reportagem do Programa “60 Minutos” sobre a violência sobre as mulheres no Congo Belga, onde a violação é uma prática sistematizada que assume números esmagadores (em certas aldeias 90% das mulheres já foram violadas), a que se associam práticas de humilhação, terror psicológico, escravidão, mutilação. Segundo alguns analistas, a violação é já parte integrante da táctica de guerrilha, servindo para aterrorizar as populações, tendo em conta que muitas das violações são praticadas enquanto os familiares e vizinhos são forçados a assistir.
Lembrei-me de Dogville quando li a notícia do “Diário de Notícias” sobre o crescente número de mulheres chinesas identificadas em Portugal associadas ao tráfico sexual. Na notícia refere-se que apesar de existir ainda um número maioritário de cidadãs brasileiras envolvidas neste circuito, as redes de tráfico chinesas são uma realidade em crescimento, sobretudo no contexto da prostituição desenvolvida em casas particulares e apartamentos, mais camuflada, ao contrário da praticada em estabelecimentos de diversão nocturna. Este é, provavelmente, um dos sinais mais preocupantes da criminalidade organizada na Europa, e com uma cada vez maior importância nas receitas destes grupos. E se em muitos casos ainda se assiste a uma angariação das vítimas através do rapto (muito frequente nos países da Europa de Leste) e de burlas, cada vez mais mulheres envolvidas nestas redes estão conscientes do tipo de trabalho para o qual estão a ser recrutadas, o que é revelador da situação dramática vivida nos seus países de origem. Contudo, ninguém as avisou do clima de intimidação e autêntica reclusão a que são submetidas, através da apreensão do passaporte e das situações de agressão constantes. Nós podemos encontrar estas mulheres nas ruas das cidades durante a noite, nas casas de alterne espalhadas pelo país, folheando as páginas de classificados dos jornais diários, contudo, não as queremos ver.
São dois esboços da realidade com que convivemos dia-a-dia, à nossa volta, mais distante ou mais próxima. Uma realidade violenta e crua que contrasta com os direitos e princípios humanos escritos e globalmente apregoados. Não são dois mundos, mas apenas um, com duas faces, que se revelam à vez num (des)equilíbrio difícil de prever e de entender.

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