Herdade da Coitadinha

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

A aquisição da Herdade da Coitadinha e do Castelo de Noudar, no concelho de Barrancos, foi há alguns anos atrás, o resultado de um processo extraordinariamente doloroso, de muita persistência, de alguma militância, mas acima de tudo de coragem de alguns “agentes” do poder local daquele concelho contra um poder central insensível para com os símbolos históricos e sociais de uma população e de um país, com pouca visão de futuro, quanto à riqueza patrimonial daquele canto com cerca de mil hectares, e pouco tacto quanto ao modo como se trata o património deste país. Quase que por milagre, muito jogo de cintura e teimosia, e alguma paciência, o processo culminou com a aquisição do Castelo de Noudar, pela Câmara Municipal de Barrancos, e o restante da Herdade da Coitadinha pela EDIA. Mel na sopa, pode dizer-se, quando um processo desta natureza teve este desenlace, com tantas pressões, tantos desencontros, com diálogos surdos com potenciais compradores, com recados indirectos de secretários de Estado poderosos, aliados a outros mais poderosos futuros donos. Em jogo estava a propriedade de um troço importante da história do Sul de Portugal. Resumidamente, só de memória de alguns papéis que trago chorados na ponta dos dedos, na zona da Coitadinha/Noudar, instalou o D. Dinis o primeiro Couto de Homiziados, em Portugal (problemas de desertificação não são só de hoje); permitiu à Ordem de Aviz instalar-se naquela região, para precaver, entre outras coisas, algumas tentações totalitárias dos espadários da Ordem de Santiago e proteger a coroa portuguesa; ali se definiu um dos últimos troços da fronteira entre Portugal e Espanha; ali se localizou um dos campos de concentração da famigerada guerra civil de Espanha (leiam o excelente trabalho do Paulo Barriga sobre esta questão); ali se preservaram excelentes exemplares de raça mertolenga, ajudando a impedir a extinção da raça; ali está depositado um importante património natural e geológico que importava salvaguardar, valorizar e promover, numa perspectiva de desenvolvimento sustentável, etc., etc… Importa também esclarecer, por aquilo que me vem à memória, que uma das principais justificações para a aquisição da “Coitadinha”, pela EDIA, foi a compensação dos danos ambientais da construção da barragem. Uma boa justificação, diga-se! Mas isto vem a propósito de quê? Apenas porque se diz, para quem quer ouvir, que se pretende vender a Coitadinha… Desculpe!? Sim? Hum… Não é verdade, pois não? É brincadeira, não é, senhor Ministro…

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