Haja justiça

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rodeia Machado

técnico de segurança social

Desde há duas semanas até hoje, e possivelmente ainda mais alguns dias, a imprensa escrita, falada ou televisionada, não faz mais nada senão falar da operação “Face Oculta” e dos seus presumíveis implicados.
Não pretendo, com esta crónica, retirar qualquer acção de culpa ou retirar qualquer ilação que não seja a de um leigo sobre a matéria judicial, que se interroga sobre como isto foi possível, ou como isto é possível, numa democracia moderna, que se quer adulta e consciente das suas responsabilidades.
O que mais me preocupa são manifestamente as mazelas que este e outros casos semelhantes vão criando no tecido democrático e judicial na sua mais que aparente descridibilização, quer dos políticos, de uma forma geral, quer dos juízes, procuradores, presidentes dos tribunais superiores e outros, que sobre o caso têm manifestado as mais diversas opiniões.
Claro que todos nós, e ainda bem, temos direito à nossa opinião, bem como o direito de a expressar livremente desde que não haja ofensas ou perjúrio, mas temos igualmente direito à nossa indignação face às diferentes bitolas e graus de responsabilização com que vários intervenientes são tratados.
Isto é, todos os dias assistimos a novo desenrolar do processo, que mais parece uma teia, ou é mesmo uma teia de interesses, que configuram algo de muito grave que se está a passar.
Começaram primeiro por prender o cidadão e empresário da sucata Manuel Godinho, que segundo é dito há muito que andava a ser investigado. De repente surge o nome de Armando Vara ligado a esta questão e que muito presumivelmente estaria implicado em favores feitos ao dito Manuel Godinho. Daí a começarem a vir a lume mais personagens e figuras do meio empresarial estatal e para-estatal foi um ápice. E isto, note-se, tudo gente de confiança do Governo.
Já era grave que assim fosse, mas tornou-se ainda mais grave quando o nome do primeiro-ministro José Sócrates aparece ligado a escutas e estas relacionadas com Armando Vara.
A partir daqui foi um corrupio de informações e contra-informações, dignas de um filme. Entraram em cena as magistraturas, com os seus altos representantes, o procurador geral da República e o presidente do Supremo em confronto directo sobre as referidas escutas.
Os esclarecimentos criaram cada vez mais confusão e o cidadão comum tem assistido estupefacto a esta telenovela da vida real. O primeiro-ministro José Sócrates diz que foi apenas uma conversa com um amigo, mas não explica o teor, o que cria maior confusão. Vem mais tarde dizer que afinal era sobre um assunto que vem na comunicação social. Alguém acrescentou que era sobre o pseudo-negócio da TVI e do telejornal (já extinto) de sexta-feira, apresentado por Manuela Moura Guedes, que pediu para ser assistente no processo, para poder ouvir as tais escutas se elas não forem entretanto destruídas por serem consideradas ilegais.
Entretanto, domingo passado, e a propósito destas questões, o comentador Marcelo Rebelo de Sousa expediu também as suas opiniões sobre estas matérias. Diz ele que o primeiro-ministro José Sócrates deveria ter esclarecido as conversas, o que nunca fez, e que os senhores Silvas deveriam estar calados, o que não fizeram.
A quem se referia o comentador Marcelo Rebelo de Sousa? Primeiro, a Santos Silva, ministro da Defesa, que se referiu ao processo de escutas de forma menos própria. E o segundo é o ministro da Economia, Vieira da Silva, que se referiu às escutas como pura “espionagem política”
Também acho que ambas as declarações são infelizes, mas esta última da “espionagem política” é a mais grave de todas.
Espero sinceramente que, para bem da democracia, do regime democrático e do nosso sistema de justiça, o processo possa evoluir favoravelmente, ou seja, doa a quem doer e que os culpados sejam punidos de acordo com as leis deste país.
Porque assim não! Com dúvidas sobre a justiça é que os cidadãos podem perder a confiança nos tribunais, nos juízes, nos procuradores, nos presidentes dos tribunais superiores, ou seja, podem perder a confiança no nosso sistema judicial.
E viver num país sem justiça é que eu não quero. Safa!

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