Águas: e agora?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Adelino Coelho

militante do Bloco de Esquerda

Na edição anterior deste jornal, houve uma notícia a que dei particular atenção. E devo mesmo dizer que é uma notícia que não me surpreende em nada e até esperava que mais tarde ou mais cedo ela havia de chegar. E agora chegou apenas pela rama, porque ela chegará daqui a mais algum tempo de forma bombástica. E se há coisas que eu não gostaria de ter razão antes de tempo, esta é uma delas!
Refiro-me à notícia de primeira página do “CA”, com o título: “Águas de Portugal (AdP): privatização põe Municípios preocupados”.
Em primeiro lugar quero dizer que não acredito nessa preocupação, é portanto uma falsa preocupação desses autarcas, porque quando o acordo de parceria com as águas AdP foi assinado por estes municípios, dando à AdP 51% da empresa Águas Públicas do Alentejo, e ficando o conjunto dos municípios com 49%, já se sabia que mais ano menos ano a AdP seria privatizada! E desde logo esta empresa, Águas Públicas do Alentejo, seria com a complacência dos nossos representantes locais, mais um apêndice da Águas de Portugal, para em nome do lucro, ou muito lucro, a água que nos chega à torneira deixasse de ser um serviço público de qualidade e a preços controlados, para passar a ser mais um produto onde a ganância dos grandes grupos económicos se sobrepõe ao interesse das populações. E eles sabiam disto!
Isto foi discutido nas assembleias municipais, pelo menos nalgumas, portanto não podem vir agora dizer-se preocupados, com uma coisa que sabiam desde o início que ia acontecer, fosse com o Governo PS ou PSD, sendo que com estes que agora chegaram ao poder, o processo possa andar mais depressa, o destino já está traçado há muito tempo. E por isso não tenho dúvidas em afirmar, eles sabiam disto!!!
Esta questão da privatização da AdP foi amplamente discutida e foi notícia neste jornal. Em Castro verde foi inclusivamente necessário realizar-se uma Assembleia Municipal extraordinária para discussão e votação sobre a participação deste Município nesta parceria, tendo como questão central a provável privatização da Águas de Portugal.
Vejo esta notícia e esta suposta preocupação como um começo das desculpas que aí vêm, para a tentativa de desresponsabilização daqueles que sempre defenderam este acordo e viam a AdP como se fosse a “salvação da pátria,” apesar de nessa discussão, terem sido dados vários exemplos de descontentamento de muitos municípios e populações onde havia acordos com a AdP (mesmo sendo ainda empresa pública) (SA).
Na generalidade dos casos, esse descontentamento tem a ver com as exigências da AdP sobre as tarifas de consumo da água, incomportáveis para as populações. Está-se por isso a ver o que nos acontecerá quando for privatizada! Nessa altura, os municípios sem poderes para mudar seja o que for, dirão que não têm nada a ver com isto e que a responsabilidade é dos outros, mas foram eles, sem dar cavaco ao povo que os elegeu e nas suas costas, sem prestar qualquer esclarecimento aos munícipes, que assinaram à pressa, e em vésperas das eleições autárquicas, um acordo para 50 anos, portanto para as próximas gerações, com a Águas de Portugal.
Não podem, por isso, querer deitar-nos areia para os olhos e começar a ensaiar as lágrimas de crocodilo, que nós sabemos o que significam. Acredito que tenham uma bota difícil de descalçar, porque sabem também que, a devido tempo, lhe serão pedidas responsabilidades.
Mas em vez de começarem com estes truques, bem melhor seria que os autarcas arrepiassem caminho, porque ainda estão a tempo, e abandonassem esta parceria que em nada favorece as populações do Alentejo.

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