Grupo Coral de Ourique

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Têm ainda as palavras fechadas nas bocas quando sobem ao palco. Caminham domingueiros, a preto e branco, com um chapéu de aba longa na cabeça e um lenço ao pescoço.
Como se fossem andorinhas perfeitas, vão solenes, engomados, serenos. A sala é toda feita de silêncio porque os únicos barulhos que se ouvem, os únicos ruídos possíveis, os únicos rumores que se aceitam, são os que aqueles homens levam agarrados às solas dos sapatos. Tudo o resto é silêncio porque o respeito não se ouve.
Vão atrás uns dos outros sem que ninguém vá à frente de ninguém. Alinham-se. Limpam as gargantas. E de repente, uma voz nasce de dentro de um lenço cinzento, irrompe dos lábios e esvoaça sozinha pela sala como um pássaro contente. É o “saída”. E acrescentando “ pontos”, as outras vozes, como se estivessem à espera que a emoção desse um sinal, lançam-se no ar agarradas umas às outras. São um bando de pombas brancas que se soltam das algibeiras da noite e nos poisam nos ouvidos. E nós, indefesos e arrepiados, abrimos-lhes as portas do nosso céu para que elas possam voar no azul alentejano dos nossos sentidos. E quando as pombas recolhem aos corpos dos homens maduros, o pássaro solitário volta e com as suas asas de penas deixa-nos saudades no ninho do peito.
Enquanto ecoa a moda, a sala fica suspensa. É tempo de sentir, é tempo de deixar correr este rio de pó e horizontes que temos dentro de nós. É hora de lembrar o passado que nos deu o que somos. É altura de abraçar os nossos avós. É tempo de cuidar das raízes.
Os mais velhos entenderão as modas de uma maneira. Mergulham na memória, descem os degraus do tempo, fecham os olhos e às vezes choram. Com razão.
Os mais novos entenderão as modas de outra maneira. No início talvez se façam fortes, talvez lutem contra as vozes, as palavras, o silêncio, a cadência, o destino, mas depois vacilam, inebriados de lírios roxos do campo, de amores de mãe, de solidão, de marcela, sucumbem lentamente, sentem a planura, os montados, o voo das cegonhas, a musicalidade da pronúncia. Descoberta a sua essência, entregam-se à moda. É que os genes palpitam nos seus corações como borboletas invisíveis.
Entre cada moda, as palmas dizem que sim. Dizem que o grupo coral é a voz das nossas almas, dizem que as suas camisas brancas são a cal, que os casacos pretos são o luto, que os lenços são azeitonas, que as calças são noites sem lua, que os chapéus são sombras frescas em dias de fogo, que as palavras são o miolo da nossa identidade de trigo e bolotas.
O grupo coral não precisa de instrumentos. O cante vem nu, chega em carne viva, apresenta-se despojado de acessórios. Traz um coração de terra, uma garganta de orgulho, uma boca de nostalgia e olhos para chorar.
<i>“Ó águia que vais tão alta, voando de pólo em pólo, leva-me ao céu onde eu tenho a mãe que me trouxe ao colo.”</i>

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