Gosto de Gostar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Napoleão Mira

empresário

Finalmente temos um Inverno dos antigos, com chuva de dia inteiro e frio de bater o dente. Os dias, esses, são pequenos e as noites são tão longas como as memórias de quem já viveu esta e outras vidas; mas não me julguem mal aqueles que por aqui passearem os olhos. Eu gosto mesmo do Inverno! Como sou cada vez mais caseiro, gosto de sentir o vento a zunir lá fora tentando penetrar pelas frestas das portas e janelas. Gosto de ouvir a chuva brincando às sinfonias, onde as telhas são as teclas dum imaginário e enorme piano e as gotas notas musicais que se me derramam ouvidos dentro. E eu sentado à lareira, em entretengas de passar horas de solidão onde brinco com o fogo e com as labaredas de palavras que da mente vou escorrendo. Gosto de comida de panela e de vinho tinto alentejano. Gosto de ter amigos ao meu redor. Gosto de cozinhar e de experimentar novas receitas. Gosto da matança do porco e dos antiquíssimos rituais que a mesma encerra. Gosto de política, mas estou zangado com ela. Gosto dos homens, mas já acredito em muito poucos. Gosto do Alentejo e de Entradas, especialmente. Gosto de entardeceres e de meter o nariz pelo postigo das vizinhas para cheirar o que cozinham. Gosto dos meus cães e da amizade canina que compartimos. Gosto do meu irmão, mas estou chateado com ele já nem sei bem porquê. Gosto de minis e de tremoços. Gosto de andar de bicicleta, especialmente com a malta de Divor. Gosto de gostar de coisas que os outros não gostam. Gosto dos prosemas do Vitor Encarnação. Gosto de Bliss, Buika e cante alentejano e de mais uma porrada de sons que não cabem aqui nesta mensagem quase telegráfica. Gosto de tabernas antigas com sorrisos, minúsculos copos de tinto e rifas de facas. Gosto do cheiro a lavado que minha mãe deixa na casa sempre que por lá passa. Gosto do amor visceral que reparto com minha irmã. Gosto dos meus filhos como se fossem troncos duma indestrutível raíz. Gosto genuinamente dos meus amigos, embora pareça que por vezes estou distante. Gosto de abalar e de chegar, para depois voltar a abalar, para de novo chegar…e mais uma vez abalar. Gosto do caminho e do aperto no coração sempre que vejo a torre sineira da minha terra. Por falar em terra! Gosto de ter terra e orgulho na nobreza lavada das gentes que nela habita. Gosto de costas de gila com café de chocolateira e de fatias de pão barradas a banha, torradas no borralho matinal das últimas brasas. Gosto dos campos e da solidão da terra. Gosto do “Chaparro do Pernas”, qual virtual fronteira que distingue o longe do perto. Gosto do labiríntico desenho das pedras da calçada da minha rua. Gosto de Amália até morrer e não sei se até mesmo depois de. Gosto do Natal à volta do lume e à volta da família. Gosto muito mais de dar do que receber, mas gosto sobretudo dos meus, de estar vivo e de sonhar sonhos de sonhar acordado que um dia realizarei à custa de muito brigar com eles.

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