Geração de ouro

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

Escrevo no rescaldo da campanha para as autárquicas 2009, antes de conhecer os resultados. É sábado à noite, a televisão transmite o jogo entre a nossa Selecção e a da Hungria e Portugal marcou, há pouco, um golo. Estamos a ganhar, portanto. Por cá, na nossa terra, teremos que esperar até amanhã, a esta hora, para sabermos quem ganhou.
Ontem à meia-noite terminou o período de campanha eleitoral, sendo proibidas, hoje, quaisquer acções partidárias e de apelo ao voto. É, melhor dizendo, foi, já que o dia está muito perto do fim, um tempo dedicado à reflexão por parte dos eleitores e ao balanço da campanha por parte das várias forças concorrentes. Por mim, cumpri o estipulado pela Lei. Levantei-me um pouco mais tarde do que o costume, depois de uma noite de um sono tranquilo e reparador, optei pelo banho de imersão, deitando para trás das costas, sem culpas, condutas sobre poupança de água e tomei o pequeno-almoço no café, sentindo que depois de duas semanas tão duras e esforçadas, tinha direito a tudo. Passei os olhos pelos jornais, sem aprofundar a leitura porque iam sempre entrando pessoas que metiam conversa e telefonei ao meu filho a convidá-los para almoçar porque tinha saudades das minhas netas, que não via há uma semana. Umas horas com elas operam milagres. Até a crise de sinusite que me atacou há dois dias melhorou significativamente e não foi só por via da medicação, tipo SOS, que comecei logo a tomar porque era preciso acabar a campanha, era preciso estar numa mesa de voto, amanhã, como delegada, era preciso, em suma, chegar ao fim.
Elas chegaram e a vida, o mundo, parou. Contei histórias à Matilde, respondi, como pude, às mil perguntas que ela faz, mudei a fralda e brinquei com a Clarinha, vi o colo a ser disputado pelas duas e fiquei feliz e babada quando, na altura de escolher os lugares, à mesa, a Matilde decidiu, sem direito a rateio, que a avó Nana é que se senta ao pé dela.
Com elas, esqueço tudo.
Mas o tempo passa, passa sempre e o meu tempo com elas foi de ouro mas, por hoje, chegou ao fim. Elas regressaram a Beja, à sua casa e eu regressei, revigorada e leve, à vida e às tarefas que ficaram adiadas. E decidi que era tempo de olhar para trás. Fazer o balanço.
Do ponto de vista físico, foram dias esforçados, muitos quilómetros nos pés, caminhando todos os dias, de manhã à noite, porta a porta, contactando, falando, explicando. A minha freguesia é enorme, vinte povoações, espalhadas por 318,13 kms2. No início da segunda semana, o colo do fémur queixou-se do abuso e, para continuar, foi preciso recorrer ao Airtal. Mas o entusiasmo era enorme e a minha “malta” contagiava tudo e todos com a sua boa disposição. Nos dias em que não havia tempo para comida de “faca e garfo”, umas tapas ou sandes e umas minis ou sumos resolviam o problema da fome. Chegados ao fim, acho que estamos todos mais elegantes – comemos pouco e andámos muito, como recomendam os dietistas.
Agora, na televisão e na minha sala, toda a gente vibra com o segundo golo da Selecção de todos nós. Continuamos a ganhar!
Voltando ao balanço da campanha e se, do ponto de vista físico, sobrevivemos a tudo, apesar de algumas queixas e mazelas, do ponto de vista político e emocional devo dizer que foi uma experiência fabulosa, muito gratificante, mesmo. Gente boa, a nossa, a maioria a tratar-me como se fosse um dado adquirido que serei eu a eleita pelo povo para representar a freguesia. E não há como ter sempre um bloco de notas sempre à mão para apontar todas as sugestões e propostas.
– Não se esqueça que nesta rua temos falta dum poste de luz. – Olhe que é preciso ampliar o palco das festas. – E veja lá se me manda tirar este cepo (árvore seca) que está aqui à minha porta.
E imbuída do entusiasmo e certeza deles, dou por mim a tomar notas, terra por terra, como se já tivesse sido eleita.
Também para Portugal está a ser uma experiência fabulosa e emocionante porque Simão acaba de marcar o terceiro golo! Garra e capacidade! É o que é preciso para vencer!
A minha equipa, a quem, carinhosamente, chamo a minha malta, é composta, sobretudo, por gente jovem, numa aposta clara e consciente na renovação, na criatividade, na inovação. E apesar de conhecer as suas qualidades, ainda foram capazes de me surpreender, superando as minhas expectativas. Trabalhadores incansáveis, motivados, empenhados, a funcionar sempre como uma verdadeira equipa, mesmo depois do dia terminar, quando, já nas suas casas, continuavam a mandar-me sms sobre todas as ocorrências, alguns recheados de refinado humor, outras vezes, falando da sua emoção ao verem o largo da sua terra cheio de gente, atenta, ouvindo a nossa mensagem e comentando, no fim: Assim é que é! Não disseram mal de ninguém! Os “outros” vieram aqui e foi só dizer mal…
Amanhã, seja qual for o resultado, vou agradecer-lhes. Por todo o seu empenhamento, por toda a sua disponibilidade e dizer-lhes que sem eles, sem esta equipa de gente boa, gente “fixe”, isto não era a mesma coisa…
E porque a maioria são jovens, vou dizer-lhes que eles representam, não a geração rasca, mas a geração de ouro que há-de levar-nos mais alto e mais além. São jovens que se interessam e lutam pela sua terra, jovens generosos, altruístas que, por exemplo, no dia do seu casamento, em vez de desperdiçarem dinheiro em lembranças para os convidados, optaram por converter esse dinheiro num donativo que entregaram ao Refúgio Aboim Ascensão que cuida de crianças abandonadas. Uma geração de ouro, esta!
Portugal ganhou! Esta geração de ouro não deixará nunca de ganhar!!!

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