Férias ou falta delas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

É Setembro. Final de Setembro (sei que não estou a dar nenhuma novidade a ninguém). Ainda não tive férias este ano. Recuso-me a contar como “férias” os quatro dias em que fui “obrigada” a ficar no Algarve por imperativos de calendário. Mas atenção, não me estou a queixar. Aliás, sou um pouco como o meu amigo Tony, odeio pessoas que se queixam. Eu queixo-me é de outras coisas e de ter muito trabalho não é uma delas. Pelo menos por enquanto. Pelo menos neste trabalho. Eu até nem lhe chamaria trabalho, muito menos emprego, chamar-lhe-ia talvez acreditar num projecto e fazer das tripas coração e do fígado rins para conseguir que ele vá avante. Se calhar esta expressão também não é a melhor. Que ele prossiga, vá.
Agora custa-me, isso sim, que uma pessoa esteja aqui na sua vidinha, a fazer pela sua e a pensar na dos outros e depois tenha que levar com o estado em que as coisas estão. Olha, como dizia o outro “isto está tudo maluco. E ou é dos telemóveis ou do fermento do pão”. Pois eu não sei se é dos telemóveis, se é do fermento, sei que isto não está bom, não está. Bom, mas isso sei eu e você e mais 10 milhões de portugueses e outros cinco mil milhões por esse mundo afora. E sei que não estou a dar novidade nenhuma a ninguém. E desde já lhe digo que não espere nenhuma até ao fim desta coluna. Que é isso que mais lixa uma pessoa. É sentir que isto está de tal modo que foge ao nosso controlo. É por isso que a maior parte das pessoas nem pensa nisso. Pensa nas contas a pagar ao fim do mês, do dinheiro que não vai dar para pagar as contas ao fim do mês. Em micro, pensamos em micro. Mas porquê? Porque elegemos alguém para pensar em macro. Elegemos um Governo, pusemos deputados no Parlamento Europeu, escolhemos um banco e levamos com as decisões deles e as taxas de juro deles, porque temos de pagar contas ao fim do mês. E vamos esperando que eles pensem numa maneira de isto mudar e vamo-nos queixando e nos entremeios dizendo mal disto e daquilo e de fulano e beltrano e a esperar pela sexta-feira.
Mas tudo bem, a gente aguenta. Não se come vitela come-se entrecosto. Faz-se mais um crédito. Arranja-se mais um cartão. Agora o que me desconcerta mesmo são os números, é chamar-me para o sistema 504760246 ou 11030830, ou a avaliação do trabalho que se faz tendo em conta a estatística. O número de espectadores que assiste aos espectáculos, o número de actividades realizadas e tantos outros números que se colocam num papel e ficam à espera de macroanálise. À espera que quatro pessoas que nunca te viram, que nunca viram o que tu fazes, que não fazem a mínima ideia para quem trabalhas te analisem em “pé de igualdade” independentemente do teu perfil, menosprezando contextos e realidades específicas, ignorando o trabalho realizado até então. Que se tenha boa capacidade retórica que é isso que eles querem. Retórica e números grandes. E é assim que a gente anda ou se equilibra. Numa corda bamba legislativa, a correr, a gerir, a criar, puxando daqui para dar ali. A tentar consolidar, quando o Governo desestrutura.
Mas não me queixo. Nem gosto de pessoas que se queixam. Aliás, acho que vou meter férias que uma pessoa pelo menos assim não vê televisão, nem lê jornais, nem ouve disparates e tudo parecerá melhor depois de 15 dias de papo para ao ar. Pois, mas antes ainda tenho de fazer uma digressão com um espectáculo, preparar outro, uma revista, mudanças…Deixa lá, ficam as férias para o ano. Se der.

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