Férias

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

As férias não são para todos nos dias que correm. Pelo menos na verdadeira e simpática acepção do termo: ter dinheiro para gastar assim a bandeiras despregadas durante alguns dias. O crédito da casa, do carro, dos filhos na universidade, do último modelo de ecrã panorâmico, associado à mensalidade da TV por cabo, deixa o mais comum dos mortais agarrados a umas férias mais comedidas. Dispensando inclusive os santos dias num apartamento alugado no Algarve. Aqui há uns aninhos, os meses que a seguir se multiplicavam, pelo menos até ao Natal, davam para o pessoal recuperar os gastos supérfluos, e poupar alguns cobres. Até se podia pedir parte dum mês adiantado ao patrão, caso o subsídio de férias não fosse suficiente para as prendinhas obrigatórias. Isto era a normalidade para a mais comum das famílias. O ter um emprego para “toda a vida”, permitia este tipo de atitude. A segurança psicológica que oferece um emprego “certo” permite este comportamento. Favorece uma relação mais “empreendedora” e descansada com a “economia”. Com o dia a dia e com o amanhã. Se bem que, e tenho que o reconhecer, é uma fórmula que ajuda, na maioria dos casos, a índices de produtividade dignos de qualquer república das bananas. Mas as coisas mudaram. No privado, e nos empregos do “recibo verde”, há algum tempo que se assiste a uma tendência para o trabalho “a prazo” (às vezes eterno). E esta lógica chega agora ao sector público. Pelo menos a alguns sectores que se sustentam muito na relação “contextual”, com a resposta que é necessário dar ao projecto, ao programa, a uma especificidade ministerial ou a uma nova normativa europeia. As “esquisitas” avaliações que permitem salvar o funcionário público da guilhotina, assim como a obrigação de ser um funcionário exemplar e bem comportado, são cada vez mais um instrumento de fulanização da função pública. E os episódios de ter opinião ou dizer umas graçolas não servem só para este primeiro-ministro e para o partido actualmente no poder, mas generaliza-se a quase todas as esferas do poder e a quase todos os “chefes”. Precisamos de substituir aqui ou fazer ali, abre-se um programa, empregam-se quatro ou cinco licenciados durante algum tempo e, chegados os resultados, ponto final parágrafo ao futuro novo funcionário. É esta a lógica assente num corpo instalado cuja substituição é muitas vezes questionável. É urgente ajudar à iniciativa pessoal e a uma nova geração que saiba construir uma mentalidade que responda aos novos tempos com um programa agressivo de imaginação e novos modelos de vida. E as autarquias podem ser um sector do público exemplar nesta nova lógica administrativa que é necessário criar. Apostando mais na contratação de serviços e menos no criar espaços para “funcionários”. Mas tudo isto veio a propósito das férias que cada vez menos são para todos. Palavras em dias de Verão… Bom Agosto.

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