Fotografias

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

As fotografias são pedaços de mundo para o fotógrafo comer mais tarde.
Quando a rotina lhe tira o apetite de esplendor e sente mágoa de tudo ser repetitivo e sente míngua de vertigens e voragens, ele revela-as, coloca-as diante de si e mata a fome de trigais, crepúsculos e corpos de mulher.
O fotógrafo é uma formiga que acha e carrega instantes perdidos e miolos que se soltaram do fermento do universo. Ata-os aos molhos com os olhos e leva-os a tiracolo por um carreiro de passos solitários. Um fotógrafo inteiro é por natureza um desalinhado, um garimpeiro, um egoísta, um caçador furtivo. Descobre migalhas de fulgor onde mais ninguém as vê, rouba eternidades ao efémero, arranca ilusões das próprias raízes da realidade e filtra gritos até que só já haja silêncio e consegue que nesse mesmo silêncio de papel todos os gritos se ouçam.
Quando o fotógrafo revela revela-se, diz-nos com quem fez amor no orvalho, no areal, no restolho, na cama, no céu, na rua, na noite, à torreira de Beja. Dá-nos os mapas parados de todos os movimentos do mundo e mostra-nos que é com mecanismos de sensibilidade e luz que eles se animam. Numa fotografia vemos a corrente que leva a água, sopra-nos no rosto o vento que agita a árvore, limpamos o pó que cobre a memória, fazemos festas ao cão que dorme no nosso contentamento de o termos, choramos a dor preta da morte, abrimos um postigo para entrar o fresco, tacteamos a capa do livro que a muito custo sustém palavras inquietas, sentimos o arrepio do deleite em curvas de carne, brincamos com a infância que volta, olhamos o sol que se mete no mar para aquecer os peixes durante a noite, perscrutamos ombros e cabelos a contraluz, seguramos um crucifixo que benze um peito redondamente pecador, provamos uma maçã suculenta que nasce do ventre de Eva, lembramos o amor que se perdeu quando lhe dissemos que era amor, perpetuamos a amizade num abraço, vemos o passado a olhar-nos de frente e a perguntar-nos se valeu a pena termos chegado aqui, seguramos na mão as chamas de um fogo a dois que o tempo congelou em temperaturas de papel acetinado-mate, pressentimos que um filho, uma filha, à medida que se separa de nós e enceta a viagem da vida, mais perto vai estando da essência do nosso afecto.
Uma fotografia é um beijo dado com os olhos. É um furto qualificado, uma dentada no quotidiano, um poema que a vida diz a todo o instante, mas que só alguns conseguem sentir vividamente. O fotógrafo é o tradutor desses poemas vivos, é o intérprete dessa magnifica linguagem de firmamentos e de sorrisos.
E uma fotografia de uma mulher bonita é um beijo dado com uma língua de aumentar que faz zoom corpo adentro da coisa.

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