Folha de jornal. A vida como ela é

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Scolari agrediu um jogador sérvio e apanhou quatro jogos de suspensão e uma multa de 12 mil euros. José Mourinho agrediu a confiança de Abramovich sai do Chelsea e recebe 30 milhões de euros. Os Lobos elevam o nome de Portugal no Mundial de râguebi. Selecção portuguesa de futebol à rasca.
Entrou em vigor o novo Código do Processo Penal. Cento e quinze presos preventivos são postos em liberdade. Supremo nega <i>habeas corpus </i>ao “nazi” Mário Machado. Morreu Marcel Marceau. Matou-se Pedro Alpiarça. Fidel Castro não morreu. Lendias d’Encantar estreiam co-produção com Teatro D’Dos de Cuba. Gloria Estefan lança “Cuando Cuba será Livre”. Che Guevara dá nome a rua de Serpa. Dalai Lama não é recebido pelo Governo. Câmara Municipal de Beja organiza “Made in China”. Já ninguém fala das festas de Barrancos. Foi detectado foco de língua azul em Barrancos. Festival do Amor tem segunda edição em Beja. Mulher mata os dois filhos com faca eléctrica e suicida-se.
Sentadas no banco do comboio com os peitos apoiados na pequena mesa que normalmente serviria para outro tipo de apoios, passam em revista temas da actualidade. São três. Atrevo-me a adivinhar as suas profissões, de onde vêm, para onde vão, que laços as ligam. A saia travada pelo joelho e casaquinho tons pastel, adivinham-lhe um passado como professora primária. Os anos passados em cima de um estrado de madeira notam-se ainda na forma como coloca a voz, no modo de se dirigir às demais. Especialmente àquela que, tento adivinhar, será sua mãe. Parecidas no trajar, a mais velha em tons mais escuros e de sapatos rasos, semelhantes nas opiniões (nas certezas). Sabem o que aconteceu a Maddie e o que deveria acontecer à mãe da menina que morreu em França à fome e à sede. São cúmplices talvez por sangue, cúmplices nas opiniões, mas, duvido, nas confissões, nas confidências. Existe uma terceira, mais exuberante na aparência, mais contida na conversa e nas opiniões. Creio que será conhecida das outras mulheres, vizinha talvez. É avó, de certeza. Talvez vá ter com os netos e a filha (o) que moram longe. Tem um olhar triste, perdido. Mãe e filha (?) saem uma estação antes. A terceira mulher muda de banco, colocando um ponto final na conversa.
Abre-se a porta do corredor e entram pai e filha (?). Ele de acordeão em braços, toca notas mais ao menos afinadas. Ela segue na frente com a garrafa de água cortada ao meio onde recebe as poucas moedas dadas em esmola. Ninguém lhe olha nos olhos, a maioria nem olha. Cabeça enterrada no jornal, olhar inerte no banco da frente, um fechar de olhos finge um sono profundo. A menina de sete anos (?) passa e lança um sorriso. Retribui-lho. Baixa a meia garrafa de água e seguiu em frente. Deixa de olhar a quem pede a esmola e fixa o olhar no meu, sorrindo sempre. A porta da carruagem fecha-se, a música já se ouve ao fundo. Procuro-lhe ainda o sorriso que desaparece na carruagem 22. Desaparece também a terceira mulher, mais exuberante na aparência, mais contida na conversa e nas opiniões. E a carruagem agora em silêncio.
Deito os olhos pelo jornal. O cineasta espanhol Carlos Saura realiza “Fados”. Fados…Vidas… Um misto de folha de jornal e da vida como ela é. Assim somos nós. Atentos a tudo o que se passa ao nosso redor, tão poucas vezes atentos em nosso redor. Olho pela janela, lá fora, a menina de garrafa de água cortada ao meio na mão sorri-me, enquanto o pai recolhe as poucas moedas que lhe vão encher o estômago. Apita o comboio, seguimos viagem. Volto a ler o jornal.

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