+ FMIsta que o FMI…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

Várias medidas impostas pela “troika” FMI – BCE – Comissão Europeia e subscritas pela tríade (já que Paulo Portas não gosta de palavras estrangeiradas…) doméstica – PS, PSD e CDS – representam um autêntico interioricídio e atingem directamente o poder local e o Alentejo.
A primeira é a privatização da Águas de Portugal, monopólio ainda público que detém 51% do capital das parcerias regionais que controlam a distribuição de água em alta em mais de 200 dos 308 municípios portugueses.
Entre estas parcerias estão a Águas do Norte Alentejano SA, a Águas do Alentejo Centro, SA e também a impropriamente chamada Águas Públicas do Alentejo SA que, como o próprio nome indicia, vão deixar de o ser por via da privatização.
Os resultados começam a ser conhecidos: Évora, o maior município do Alentejo, acumulou uma dívida de cerca de 6,5 milhões de euros à Águas do Alentejo Centro, na qual detém 26,84% do capital – eis o modelo neoliberal da “empresarialização” no seu esplendor!
Apesar de absurda, a situação é tão séria que a Câmara de Évora ameaça abandonar a Águas do Alentejo Centro e as negociações, que deviam estar concluídas em Março, não chegaram ainda a uma solução deste imbróglio.
E é apenas o princípio: as tarifas de água aumentaram quase para o dobro no início de 2011. Os municípios que queiram praticar tarifas sociais vão acumular dívidas insanáveis à Águas de Portugal – e até os outros. Confrontado com o aumento da água na Assembleia Municipal, o presidente da Câmara de Odemira deu uma resposta excepcionalmente sincera: pois, à EDP pagam e não se queixam! Conscientemente ou não, disse tudo: é que a EDP já foi privatizada.
Perante o garrote financeiro que o pacote FMI vem reforçar, muitos autarcas que já abdicaram de 51% da água em alta, estão dispostos a entregar a sua distribuição “em baixa” à Águas de Portugal, vendo-se livres dessa responsabilidade. Em vez de se queixarem à Câmara, as pessoas “vão-se queixar à EDP” – neste caso, à AdP…
Tudo seria fácil se não estivesse em causa um bem público de primeira necessidade, a que muitos chamam o petróleo do século XXI e que o próximo governo do FMI se prepara para privatizar, entregando um monopólio natural, desde a fonte até à torneira, à gula especulativa das bolsas e dos mercados financeiros. Um verdadeiro crime económico!
Adivinhem quem vai pagar… Ou melhor, quanto iremos pagar por esta aventura neoliberal de que a maioria dos municípios alentejanos foi, infelizmente, cúmplice.
Mas não é só a água: no rol das privatizações estão também os CTT e as linhas suburbanas da CP e da REFER – o que, no interior do país, significa o encerramento de postos de correios, de mais linhas e ramais ferroviários, a somar ao fecho de escolas e serviços de saúde.
É, no mínimo, estranho o “desconhecimento” dos planos da CP para a linha do Alentejo, manifestado na Ovibeja por duas das principais figuras do Estado. E quero daqui responder à pergunta do algarvio Cavaco Silva: como é que se vai de comboio para o Algarve, se fecharem o ramal da Funcheira? Vai-se até ao Pinhal Novo, sr. Presidente!
Quanto a Sócrates, quem lhe emprestou cinco euros para comprar a camisola “Beja Merece” talvez o pudesse esclarecer. Mas duvido, até porque Jorge Pulido Valente se declarou adepto de uma das medidas da “troika” mais lesivas para a democracia local e para o Alentejo: a redução avulsa de municípios e freguesias, a começar no concelho de Beja. E sem falar uma só vez na regionalização, que o próprio Congresso do PS adiou para as calendas gregas.
Como pioneiro, começou por cortar nas comemorações do 25 de Abril.
Há quem seja mais FMIsta que o FMI…

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