Fim de século

Sábado, 7 Janeiro, 2012

Paulo Barriga

jornalista

Esteve para levar o título de “fim de ciclo”, esta crónica, nome que foi recusado à última da hora em função do espírito definito que encerra. Ficou “fim de século”, uma batota que tem a ver com a dificuldade do autor aceitar de ânimo leve o falecimento de uma certa cultura rural de transmissão oral, memorialista, de que a sua geração será, talvez, a última depositária. Sendo que tal herança já lhe chegou às mãos algo surrada, puída e irremediavelmente confusa, porque fragmentada.
“Fim de século” é uma fronteira aberta que deixa algum espaço à esperança. É uma etapa e não um fim de partida. Se bem que essa tal memória colectiva do povo alentejano, embrenhada nas práticas e nos costumes da terra, na crença e nos medos, essa história do maravilhoso e do fantástico que se transmitia hereditariamente defronte do lume, talvez tenha escrito o seu último capítulo no virar do milénio. A tecnologia terá por fim esmagado o secularismo. A aldeia global terá por fim silenciado a aldeia empedrada. E a pergunta que permanece é esta: poderá um povo, qualquer povo, viver sem memória? Este artigo não dará resposta a esta questão. Nem tentará.
Este artigo constatará apenas a necessidade que os povos começam a sentir – em plena generalização (ou globalização) da cultura técnica – de regressar aos ritos colectivos, à tradição, ao folclore, até. Basta estar um nadinha atento ao panorama livreiro para perceber como a aposta das diferentes editoras, cá como no resto do mundo ocidental, passa invariavelmente pela publicação de títulos no âmbito da história, da etnografia, da antropologia social.
A primeira vaga destas edições memorativas está direccionada para a personificação de heróis e para a reapropriação dos momentos históricos através da individualização dos protagonistas. Quer-se contar as guerras liberais e fala-se dos amores de Carlota Joaquina, quer-se fixar os tempos da primeira crise dinástica e vai-se à alcova de Leonor Teles, quer-se perceber as dificuldades militares na romanização da Península e recompõe-se o pastor Viriato. A sociedade de consumo, individualista, recupera na sua própria definição as necessidades mnemónicas do indivíduo actual: o individualismo histórico.
O Código Da Vinci, de Dan Brown, ao humanizar a figura de Jesus de Nazaré e ao recuar ao paleo-cristianismo, retendo-o enquanto época histórica e não apenas bíblica ou lendária, constituirá o expoente máximo do negócio editorial em torno do “passado histórico individualista”. Enquanto O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, se assumirá como a grande bíblia à escala global das histórias que navegam entre a ficção e a realidade, contadas de geração em geração, e que encorpam um certo património cultural colectivista e de tradição oral.
Nós por cá também nos vemos constrangidos com o “fim da história oral” e necessitados em recuperar, abonando em favor da nossa própria sobrevivência, a nossa memória colectiva. Interrompida que está a dinâmica natural de transmissão cultural, geracional, a esperança reside igualmente na investigação científica e na literatura e, antes de tudo, na sua publicitação editorial.
Nos últimos tempos foram publicados dois livros que recuperam o século XX alentejano, e com ele a tal cultura telúrica deste povo, de forma notável. O primeiro é um romance (um falso romance) que conta a história de um perfumista de Mértola por ocasião da Primeira Grande Guerra, contando em sua órbita uma miríade de outras breves histórias saídas da fala do povo, da revolta, da resignação, da cisma, da crença do povo. O livro de Joaquim Mestre, O Perfumista, é muito mais que uma mera obra literária, é um valioso álbum de memórias.
Outro protagonista assombroso cujas fantásticas partes, ditos e histórias estão agora em livro é José Guedelha. O escritor e investigador João Mário Caldeira encontrou nesta figura ímpar da sua “zona de intervenção”, a margem esquerda do Guadiana, uma fonte inesgotável de memória colectiva. Bebedouro de cuja fresca água nos oferece ele agora um púcaro neste recentíssimo O Velho Ainda Canta! Falando nas capacidades quase humanas de um cão, e depois de contar algumas peripécias que afamaram o animal, o velho Guedelha dirige-se assim à multidão que o escuta na taberna: “Se houvesse ali um retratista com uma máquina podia ter feito uma bonita chapa, mas um artista desses naquele descampado só caído do céu… Valeu meus país, que a terra lhes seja leve, terem ficado com tudo na memória para me contarem quando eu já tinha entendimento, senão tinha-se perdido esta bonita passagem dos meus tempos de criança…”.
Era apenas isto que se pretendia dizer desde o início desta crónica.

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