Feliz Ano Novo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Percorremos em passo lento a longa rua de empedrado. As portas estão fechadas, os estores corridos, não há ninguém sentado no banco do jardim saciando-se do sol daquela manhã de Inverno. Toda a aldeia percorre em passo lento a longa rua de empedrado. Em silêncio. Um silêncio beliscado por uma troca de palavras miudinha, atingido por um lamento, interrompido pelo arrastar dos passos na calçada.
No fim da rua, que é também o fim da aldeia, o portão de ferro assinala o fim do cortejo e a multidão dispersa-se, uns retornam à aldeia, outros, a maioria, prossegue em passo lento para lá do portão. Costumo pedir licença para entrar, faço-o sempre que entro na casa de alguém. Ao passar para lá do fim, a aldeia abandona a formatura e afasta-se na sua individualidade. Cada um inicia o percurso da suas próprias ruas, resgatando as suas memórias, suspendendo os seus momentos, confessando, pedindo, querendo acreditar. O silêncio tem agora mais laivos, feitos dos sons da vida de cada um, até que é derradeiramente vencido por um som mais forte – o som do adeus. Sempre pensei não haver no mundo som mais forte do que este. E foi então, naquele preciso momento, que outro som sem ousou ser mais alto. Sem pudor, “nasceu”, disse-se.
Seguimos em grupos de dois e três o caminho de volta à aldeia, cada um às suas em passo mais apressado. Segui também o meu com os dois sons a martelarem-me os ouvidos.
O sol do meio-dia já tem companhia no banco do jardim e as portas e as janelas estão abertas convidando-o a entrar. Abri também a minha porta e convidei o Sol para o almoço, ele entrou sem pedir licença, coisa que aos astros é admitida. Sentamo-nos os dois em cumplicidade, enquanto eu bebia um café e não fumava um cigarro. Abri o correio e dei ao meu banco, à PT, à EDP e à “Dica da Semana” os minutos do meu tempo que repetidamente lhes concedo, já que eles insistem em escrever-me, já que, por norma, são unicamente eles que me escrevem.
Não foi o caso deste dia em que bebia café com o Sol, em silêncio beliscado pelos sons da morte e da vida a martelarem-me os ouvidos. Nesse dia recebi também um postal. Abri-o com cuidado extremo, tal a sua raridade. Era um postal simples, formato A6, frente e verso de cartão branco, sem desenhos ou arabescos de qualquer espécie. Apenas uma frase percorria os 148,5mm x 105mm: “Feliz Ano Novo!”. Assim tal e qual, com o ponto de exclamação e tudo, que, creio, o seu interlocutor terá usado para enfatizar entusiasmo. E naquele momento outro som venceu o silêncio, a amarga toada da inevitabilidade e a descoberta de que mais forte que o som da vida e ou da morte é o som de não podermos evitar que uma acabe noutra, ciclicamente e sem pudor. Ali, a beber café com o Sol, tudo para além da celebração daquele momento me pareceu pequeno. Senti-me grata e feliz pensando apenas em retribuir os votos de felicidade. É isso que faço agora: “Feliz Ano Novo!”

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