Fascismo e antifascistas!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

<b>1.</b> Instalou-se na sociedade portuguesa, principalmente na boca de figuras públicas e analistas políticos, a moda de intitular de fascista tudo e mais alguma coisa.
O principal culpado parece ser o engenheiro Sócrates que, por ter sido eleito democraticamente, decidiu por em prática algumas políticas que, dizem, fazem lembrar o fascismo.
Esta moda – com contornos de doença – atingiu até quem nós pensávamos estar imune a patetices conjunturais.
“Não sei se José Sócrates é fascista”, escrevia no “Público”, há dias, uma das mentes brilhantes do nosso país. António Barreto embarcou, assim, na moda dos fascismos. Seguramente que este disparate lhe vem de herança dos seus tempos de militante comunista, única forma que encontrei para tentar compreender os seus mais recentes excessos.
Outra ex-comunista, entretanto vestida de anti-comunista, a deputada Zita Seabra, anda para aí a dizer que “a democracia e a liberdade estão em perigo”. Apetece relembrar à douta senhora que em perigo estiveram a liberdade e a democracia quando ela militava no PCP. Mas essas são outras histórias, que lhe deixaram no sangue tiques de ver fantasmas em cada esquina.
Outros ilustres colunistas repetem-se nos alertas dos perigos fascistas, ora porque a ASAE aplica a lei, feita por democratas legisladores, ora porque uma lei que defende os direitos dos não-fumadores se transformou numa lei contra os fumadores.
É verdade que a “era Sócrates” não vai deixar saudades: o desemprego aumentou, as condições de vida dos portugueses pioraram, a vida está cada vez mais difícil para uma empobrecida classe média, o funcionalismo público transformou-se no mal maior, a saúde e a educação são números, algarismos incompreensíveis, o deserto tomou conta do interior, e mesmo assim fecham-se serviços essenciais, os vencimentos e abonos dos altos dirigentes continuam a ser um dos maiores sugadouros dos orçamentos da nação e os propagandeados “Simplex”, “Novas Oportunidades” e “Flexisegurança” são um estratagema que tem servido para promoção da imagem dos nossos governantes e para encher os bolsos das agências de comunicação e marketing. Não duvidamos que é por estarmos neste estado que um ministro vem anunciar que “não serão pedidos mais sacrifícios aos portugueses” e que, por adormecimento, inércia ou outra droga qualquer, nada aconteça a esse ministro. Tudo isto é verdade, e ao optimismo do primeiro-ministro contrapõe-se a realidade de um país pobre. Mas nada disto pode servir para rotular de fascistas os ministros e de fascismo a política do Governo. É que, não duvidem, a geração nascida depois do 25 de Abril não vai compreender estes epítetos e sentir-se-á, cada vez mais, afastada da política, dos políticos e de quem escreve sobre política. Para além, obviamente, da desconfiança que cria na generalidade das pessoas.
Haja bom senso, é o mínimo que se pede.

<b>2.</b> Cá por Beja a moda já é antiga: dar os nomes de ilustres desconhecidos às ruas da cidade, a que se acrescenta o rótulo de “antifascista”, tornando assim a nossa toponímia num imenso Aljube. Compreende-se que se deseje perpetuar a memória deste ou daquele cidadão por se ter distinguido na sua profissão, na sua arte, na sua cultura, nos seus feitos históricos, no desempenho de funções de Estado, por actos de bravura e heroicidade, etc… Porém, distinguir alguém por ter sido antifascista é uma enorme injustiça. Para muitos antifascistas, principalmente. Anote-se a quantidade de poetas, escritores e homens e mulheres das Letras, professores, militares, médicos e políticos que têm o seu nome perpetuado em ruas, praças e avenidas, com a simples recordatória de “escritor”, “poeta”, “médico”, etc…, sem que se lhes faça a justiça de também os eternizar como antifascistas. Que dizer da “Rua Miguel Torga – escritor e antifascista”? Seria justo, penso eu.
Porém, na minha terra, os antifascistas que têm nome nas ruas, e é isso que a autarquia nos quer transmitir, nada mais fizeram na vida. Não se sabe se foram operários, sindicalistas, trabalhadores rurais, escritores, advogados, médicos ou se se notabilizaram em qualquer área da vida pública. Sabe-se que foram antifascistas. Uns estiveram presos. Outros não. Alguns foram vítimas da polícia política. Na sua maioria comunistas, militantes e funcionários do PCP. Justamente, não se lhes chama “democratas”, não fosse alguém dizer que, isso sim, seria uma tremenda injustiça para os inúmeros democratas que não querem saber de antifascismos de cariz comunista. Até porque a História tem revelado bastos episódios de comunismos de tez fascista.
Haja, pois, bom senso na atribuição de nomes às ruas da nossa cidade.

<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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