Falsos dilemas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rui Sousa Santos

médico

Não é nada fácil para o cidadão comum, observador medianamente atento das coisas políticas neste rectângulo irregular à beira-mar plantado, fazer uma leitura cristalina da realidade da luta politico-partidária neste Portugal de início de Verão. Claro que é seguro que o bombo da festa são o Governo e o Partido Socialista, o que não poderia deixar de acontecer para mais num momento de dificuldades globais, daquelas que ultrapassam governos e países e que tem muito mais a ver com os insondáveis (?) desígnios de quem, muito na sombra, parece mexer os cordelinhos do grande capitalismo mundial. As pancadas no bombo são de vária ordem e natureza: daqueles que sempre as deram (por diferentes ordens de razões), daqueles que se sentem directamente prejudicados ou atingidos por decisões ou posições governamentais (alguns professores constituiriam um bom exemplo, entre muitos outros) e daqueles que representam uma parte significativa dos contestatários mais barulhentos – os espertalhões que viram o seu furo estragado por diferentes factores. Estou a falar dos que fogem aos impostos, a quem a “facturazinha” (como irrita a pergunta “e a facturazinha necessita?”) tem de ser pedida duas e três vezes, daqueles que tinham planeado o <i>dolce far niente </i>à custa do Zé pagante a partir dos cinquentas e estão chateadérrimos por terem de trabalhar (às vezes justificava-se, aqui mesmo, um ponto de interrogação) mais alguns anos, daqueles que acham que a crise tem de ser sempre paga pelos outros, neste capítulo incluindo as diferentes subespécies de subsidiodependentes crónicos, transportistas capazes de parar o país sem mais e outros que tais.
Mas não é deste <i>ruído político </i>(a que se deve, no entanto, estar muito atento) que falava. Algumas peças escritas respigadas pelos diferentes jornais, blogues e outras fontes chamam a atenção para um tema que já originou o desgaste de muitos teclados especialistas em futurologia política – que governo sairá das legislativas de 2009, se o PS não repetir a maioria actual? Um Governo PS minoritário? Um governo de bloco central num<i> tete-á-tete </i>Sócrates-Ferreira Leite ou com outros primeira-linha? Ou um dito Governo de maioria de esquerda, que englobasse, de forma expressa ou mais discreta, PCP e Bloco de Esquerda?
Aos desvarios estratégicos da <i>entourage </i>política de Manuela Ferreira Leite (MFL) relacionados com a pretensa extinção da classe média e com a inomonável “recusa” dos grandes projectos de investimento, surgiram, nas últimas semanas dois textos curiosos que me conduziram à prática já rara de os recortar e colocar em cima das minha mesa de trabalho. Refiro-me ao texto “Equívocos à esquerda”, de Vital Moreira (VM), que está, também, disponível no seu blogue Causa-Nossa (<u>causa-nossa.blogspot.com</u>) e a um texto, mais pequeno, de Domingos Lopes (DL), também lido no “Público”, intitulado “Somar à esquerda é juntar todas as esquerdas”. VM, num texto de impressionante lucidez e distanciamento, sublinha a impossibilidade de uma aliança política governamental à esquerda pela contradição gerada pela autoexclusão hipercrtiticista, hiperconservadora e quase autista de um PCP e de um BE que se limitam a clamar pela manutenção de situações em que a realidade se encarregou já, nomeadamente na área social global, de demonstrar a sua insustentatibilidade e a necessidade de alternativas rápidas e concretas (veja-se casos das maternidades e algumas pseudo-urgências). VM demonstra claramente que “…não pode haver convergâncias com as esquerdas das esquerda, nas suas diversas expressões, que não abandonaram as suas bases doutrinárias rasdicadas no marxismo-leninismo, no trotskismo ou no maoísmo e que continuam acantonadas numa vocação de protesto, visceralmente anticapitalistas, contrárias a qualquer medida de racionalização do Estado social e radicalmentre hostis à integração europeia.” Já DL, numa peça curiosa de aparente ingenuidade política (ou de <i>politics for dummies</i>) parte da realização, a 4 de Junho passado, no Teatro da Trindade, da festa-comício organizada pelo BE e por Manuel Alegre, para dizer que nada disto poderá, no futuro excluir o PCP, definido por DL como sendo “… muito do que foi e do que é, se bem que muito do que foi não tenha muito a ver com o que é”. Ou seja, partido que faz, por vezes “das tripas coração”para alcançar os objectivos da unidade antifascista, da unidade democrática e das massas populares. Sabemos todos como é o outro lado da história, o lado B do disco.

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