Fado Lusitano?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Depois de Marx escrever <b><i>O Capital</i></b>, o mundo continuou tão perigoso como era, como ficou e como se mantém. Os “dez dias que abalaram o mundo” destituiram o czarismo na Rússia e trouxeram o triunfo dos bolcheviques. Que eliminaram todos os reaccionários ou contra-revolucionários, desde os mencheviques aos trotskistas, ficando célebre o assassínio de Léon Trotski, que se tinha refugiado na Cidade do México. Na Segunda Grande Guerra, as tropas de Estaline resistiram e derrotaram as tropas nazis nos gelos siberianos e foram as primeiras a chegar a Dachau e a libertar os prisioneiros Judeus.
Parecia estar tudo a correr bem aos ventos marxistas, como contra-poder ao desfeito Império Prussiano, à emergente economia alemã e ao crescente capitalismo americano.
Só que Marx tinha avisado que a cada um segundo as suas necessidades mas também segundo as suas capacidades. E a verdade é que novos czares foram aparecendo e os crimes das minorias “bolcheviques” se foram acentuando por todo o lado contra os reaccionários “mencheviques”. Em Portugal e desde Abril de 74, o que ainda resta de comunistas tem como principal adversário o “reaccionário” PS e as suas “políticas de direita”. Desde muito cedo que a revolta contra a classe política levou Hegel a perguntar se a ética tinha afinal lugar na política. E este eminente filósofo foi claramente derrotado por Maquiavel, que nos ensinou que na política, seja no campo marxista ou capitalista, triunfa a astúcia como a principal das qualidades.
É isso que explica o escandaloso e fraudulento aumento dos preços do petróleo. Que enriquece de maneira obscena os especuladores que determinam o preço do barril, dando também algum a ganhar aos países exportadores, aos diversos governos através do imposto sobre os combustíveis, a todas as “Galp’s” dirigidas por medíocres e insensíveis, mas astutos gestores, e perante a indiferença dos milhares de subservientes segundos planos, que têm o carrito e o gasóleo gratuitos nas suas transitórias e relevantes funções. A pagar isto tudo, como todas as sucessivas crises, em que de vez em quando se vê, mas fugazmente, a luz ao fundo do túnel, os mesmos do costume, agora e sempre.
E porque de facto a vida está para os astutos ou “xico espertos”, quero hoje dar os meus parabéns ao grande, diria mesmo enorme, sr. Scolari. Por várias vezes escrevi e manifestei a minha discordância em relação ao salário obsceno do cavalheiro, que lhe foi ofertado pelo senhor do cabelo cor de cenoura. Manifestei a minha indignação quando o sr. Horta e Costa, gestor de uma empresa pública, com três carros de super luxo ao seu serviço, pagou com o nosso dinheiro milhares de euros ao sr. Scolari por uma prelecção de 45 minutos sobre “condução de grupo”. Uns meses antes do senhor dar um murro num jogador sérvio. Que o próprio negou ter feito, minutos depois, perante o país, querendo fazer de todos nós, parvos. E perante a evidência das imagens, diria então que foi para defender o “minino” Quaresma. Condenado pela justiça da UEFA foi absolvido por todos os portugueses que puseram a bandeirinha de apoio. Pelo meio, foi mostrando a sua má educação com os jornalistas em diversas conferências de imprensa e foi amealhando mais uns cobres em vários anúncios televisivos das nossas empresas públicas, onde os nossos excepcionais gestores públicos (pelo menos nos ordenados e auto-regalias), lhe foram dando mais uma mãozinha, para compor o ordenado. E pondo de lado a vergonhosa prestação na fase de grupos, com o excepcional plantel e todas as condições de que dispunha, lá chegámos à fase final do Europeu com dois jogadores brasileiros que jogam na Espanha e nunca mais vão voltar a Portugal, mas que se naturalizaram quando não foram convocados para o “escrete” brasileiro. Isto num país que tem das melhores escolas de futebol do mundo. E no Europeu foi o que todos viram. O cavalheiro que já levava um acordo com o Chelsea no bolso proibiu todos os jogadores de falarem de contratos durante o campeonato. Saiu sem glória, como tinha de ser e em nova prova de desrespeito para com os portugueses que lhe pagaram principescamente. Situação não prevista pelo “Professor Martelo” nas suas lições de catequese televisivas.

Antes de terminar, devo dizer que tenho a noção e a certeza que a maioria dos leitores não vai concordar com o que escrevi. Eu sei que vivo num país onde o seu maior cantor e compositor de sempre, Zeca Afonso, teve de gravar no final da sua vida um disco com fados de Coimbra para pagar o tratamento da sua doença em Londres, enquanto os chamados “cantores pimbas” enchem pavilhões multiusos e feiras populares. E julgo que sei e leio tantas outras coisas. Mas podem os leitores ficar descansados, que o sr. Scolari mesmo antes de ir, já colocou a hipótese de voltar. Até porque treinar um clube da liga inglesa implica um trabalho diário diferente do repouso e da tolerância lusas. Um senhor israelita, também treinador de futebol, fez tudo bem feito até à final dos Campeões. Ali chegado, a taça fugiu-lhe porque um dos seus jogadores escorregou ao marcar um penalti. Foi despedido.
De facto um golo, pode valer milhões, infelizmente. Nesta Europa, onde uma greve ilegal de camionistas, como tantas outras coisas, não tem resposta por parte dos eurocratas que nos governam. E enquanto não houver respostas para elas, vamos ter o Tratado de Lisboa aprovado nos parlamentos e chumbado nos referendos populares.
Doa a quem doer, vamos ter de regressar de Maquiavel a Hegel.

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