Fado Lusitano?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Onofre Varela

jornalista / cartunista

Quando eu nasci (1944) a implantação da República tinha acontecido havia 34 anos. Na minha infância a escola primária mostrou-me a Revolução Republicana com imagens de activistas políticos ostentando chapéus e fartos bigodes de pontas para cima, desusados no meu tempo. Eram imagens históricas de outra época bem mais primitiva do que aquela que me concebeu e produziu.
A geração agora nascida (2008) está à mesma distância (34 anos) do 25 de Abril. As imagens históricas que lhes serão mostradas retratam revolucionários de bigodes com as pontas descidas para o queixo, usando patilhas e cabelos compridos, ou barba, e calças boca-de-sino, em imagens a preto e branco, tal como as de 1910. Imagens hoje desusadas, e que serão entendidas pela nova geração como retratos de outro tempo bem mais primitivo do que o seu, que é o de um país integrado numa Europa comunitária sem fronteiras internas e detentora de uma moeda comum desde as praias atlânticas até à longínqua delimitação a leste onde confina com exóticas sociedades, e com paisagens geladas a norte.
Hoje, passado — e contado, dia-a-dia, com entusiasmo e muita desilusão — o mesmo tempo que separa os históricos 5 de Outubro e 25 de Abril da baliza que é o meu nascimento, era para mim suposto termos já benefícios traduzidos em avanços sociais, económicos e políticos… que não aconteceram na medida do desejado! As promessas não se cumpriram e os sonhos de quem foi capaz de sonhar pela força do slogan “o Povo unido jamais será vencido” não se concretizaram. Hoje somos os mais pobres da Europa comunitária, os menos qualificados e, parece, os mais passivos perante situações a pedirem acção de revolta popular imediata. A evolução tecnológica chega-nos à medida que ela se espalha pelo mundo, numa dinâmica que não é da nossa responsabilidade. Só temos de a agarrar, sob pena de perdermos a última carruagem do comboio que nos pode levar ao futuro. Consumimos produtos de que não necessitamos em absoluto, mas cujo desejo nos é incutido pela triturante máquina publicitária oleada pelo capitalismo cada vez mais selvagem. E também é cada vez maior, o fosso entre ricos e pobres. E o número destes aumenta diariamente. Consumimos tudo quanto não presta, desde os lotes do supermercado até às programações televisivas, passando pelo futebol servido em estádios com gestão corrupta e socialmente danosa, e espectáculos-cantoria-pimba-de-feira, porque os nossos responsáveis políticos nunca se preocuparam em promover o ensino na sua verdadeira dimensão; que é, não só, a transmissão de conhecimentos universais, mas também a atitude de formar a consciência nas suas várias frentes: cultural, científica, artística e religiosa (esta, nas suas vertentes histórica e filosófica, e não proselitista como se pretende com a “moral” escolar e com o arrebanhamento da população infanto-juvenil pela Igreja). E, por aí, pela via da consciencialização, todos nós podemos constatar, quotidianamente, que os portugueses actuais (incluindo os jovens promissores!) continuam a cuspir e a escarrar para o chão, abundantemente, tal como o faziam em 1910! A única diferença é que também cospem pastilha elástica… que é o escarro civilizado.
As semelhanças entre a sociedade actual e aquela de que saiu a primeira República, são maiores do que podemos imaginar, a avaliar por documentos escritos. O médico, escritor e humorista de Espinho, Manuel Laranjeira, que viveu a transição da monarquia para a República, em carta dirigida ao seu amigo espanhol Miguel de Unamuno, em Abril de 1911, comentava: “O mal da minha terra, amigo, não é a demagogia: é a inépcia. Em Portugal não há demagogia: falta-nos fanatismo cívico para isso. Em Portugal o que há é uma inverosímil colecção de idiotas. A demagogia é um mal, como tudo o que é sectarismo; mas é um mal que pode ser combatido e destruído. A imbecilidade, essa, é que é um inimigo invencível. Fez-se a revolução. Foi uma verdadeira revolução? Não; foi apenas um povo que mudou de traje. Por dentro estamos na mesma. O nosso grande mal é pensar como aqueles indivíduos que se julgam hipercivilizados, só porque andam vestidos pela última moda de Paris. A revolução política para ser fecunda tinha de ser acompanhada de uma revolução intelectual que se não fez, nem há indícios de fazer-se. O povo português apresenta-se ao mundo, civilizado por fora, e o que é preciso fazer, o que é urgente fazer, é civilizá-lo por dentro. Mas nisso ninguém pensa, tão convictos estão todos de que para civilizar um povo basta fazer-lhe mudar a gravata. Eis precisamente o nosso mal: é ninguém sentir necessidade de fazer cultura, é ninguém compreender que a inteligência é o grande capital dos povos modernos e a cultura a mais fecunda das revoluções” (<b><i>Obras de Manuel Laranjeira. </i></b>Vol.I. Edições ASA. Porto, 1993).
Parece-me que o nosso mal ainda hoje reside nesta incapacidade de se entender que a transformação de um povo só pode acontecer com uma mudança radical no pensamento colectivo, o que, não sendo fácil, só se constrói através do ensino e da cultura, que são os produtores de consciência. E os nossos políticos ainda não o fizeram!… Porquê? Talvez por estarem feridos do mesmo mal de nós todos… portugueses que são!…
Cumprimos algum “fado lusitano”?

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