Eu sei que sei muito pouco

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Depois de muitos anos a estudar, leio os jornais e fico a saber que sei muito pouco.
Pulido Valente escreveu há alguns anos que o mundo estava perigoso. Estava a ser benevolente. Einstein disse que o mal do mundo não é aqueles que fazem mal. O mal é os que vêem fazer mal e ficam indiferentes. Estamos a saber por estes dias que esses indiferentes começam agora a reagir em vários países.
Como sei pouco, mal comecei a ler “O Capital” nos idos de Coimbra, desisti nas primeiras páginas. Aprendi ao longo dos anos que a utopia económica marxista, ficou a perder para o capitalismo na criação de riqueza. Mas o capitalismo também criou desemprego, assimetrias sociais graves, pobreza, crimes económicos, etc.
E como sei pouco, nunca percebi os crashes das Bolsas, em que milhares de pequenos accionistas investem para ganhar mais uns tostões na especulação. De tempos a tempos lá vem mais um crash e para onde vai o dinheiro investido? Os pequenos investidores perdem o seu dinheiro. Os grandes investidores, que se calhar são “os mercados”, certamente ficam a ganhar. Como é habitual.
Também sei pouco de economia social, mas acho que num país onde há tanto desemprego e onde os jovens licenciados estudaram para estarem desempregados, haver gestores públicos que “mamam” 500.000 mil euros por mês não cai bem. E agrava cada vez mais as assimetrias sociais. Pior que tudo é ver os dois maiores partidos do parlamento recusar a “moralização” daqueles salários. Tudo em nome dos mercados, que também se preocupam mais com as reformas menores do que com salários obscenos.
Também não sei nem percebo os aumentos constantes dos combustíveis da GALP, apesar dos milhões de lucros da empresa. Numa empresa pública que devia estar ao serviço dos portugueses, a prioridade é multiplicar os lucros de milhões, contra os que labutam todos os dias ao volante dos seus carros ou camiões, tantos deles a caminho da insolvência.
Também de Justiça eu sei muito pouco. Julguei que eram os Juízes que decidiam, mas afinal nos processos que metem gente importante, o que eu vejo são os advogados televisivos do costume dizer que os processos não têm pernas para andar, são aberrações jurídicas e as sentenças são eles que as dão em directo, nas televisões.
E sei muito pouco de desporto, onde há dois clubes que gastam milhões a comprar jogadores estrangeiros em detrimento dos jovens jogadores portugueses. Marcam mais golos que os outros e enchem os estádios com adeptos que são portugueses simples, acompanhados de claques ordinárias, que ajudam assim a fazer com que o futebol se assemelhe à sociedade civil. Dois poderosos contra uma série de pequenos clubes. Vai deixando de haver competição. Mas que importa isso neste pobre país, onde por cada fábrica que fecha abrem duas casas do Benfica ou do Porto?
De política nunca soube tão pouco. O Governo governa mas deixa alguns governarem-se. A oposição não governa, mas também se quer governar e deixar outros governarem-se. Apesar da crise, parece que ainda há algum para sacar. Lugares de chefia, popós com chaufer ou sem ele, e assento naqueles debates televisivos que não se diferenciam dos desportivos. No nível do paleio e das personagens.
Pouco, muito pouco, sei eu sobre imprensa. Lembro-me de quando apareceu o “Expresso”, que foi uma lufada de ar fresco na “Primavera Marcelista”. Lembro-me do velho “República”, do Gustavo Soromenho e dos editoriais do Raul Rego. E do “Diário de Lisboa” e da “Mosca”, que líamos avidamente nas entrelinhas, ao fim da tarde. Hoje temos o “Correio da Manhã”, líder das audiências, três desportivos diários, que publicam nas primeiras páginas e em títulos garrafais os génios à solta, ninguém pára o Benfica, os provérbios do catedrático Jorge Jesus, o Paulo Sérgio a dizer que não sai e o André Villas-Boas com aquele caderno de intelectual.
De facto eu sei que sei muito pouco. De economia, de justiça, de desporto, de imprensa.
O Otelo quando foi a Cuba também disse que se tivesse mais cultura era o Fidel Castro da Europa.
Eu quero saber mais do que sei, para que todos saibam que não podemos ficar indiferentes a tudo o que vemos e nos rodeia.

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