Eu gosto muito de conduzir em Portugal!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rui Sousa Santos

médico

É como nas filas de trânsito. Parece sempre que qualquer outra das filas anda mais depressa do que aquela em que estamos. Não conheço ninguém, condutor ou passageiro, que não tenha, em algum momento, experimentado esta sensação. Largos minutos, por vezes horas, em que a contenção do impulso de mudar de fila se exerce vezes repetidas, até que não resistimos e passamos para uma das filas do lado, exactamente aquela que por razões absolutamente inexplicáveis passou, a partir do momento em que a escolhemos, a ser a mais exasperantemente lenta, ela que nos parecia muito mais rápida do que aquela em que estávamos inicialmente… Há alguns anos atrás, lembro-me de ter lido numa das mais conhecidas revistas de divulgação científica francesa (“Science et Vie” ou “La Recherche”, já não me lembro qual) um artigo muito interessante sobre as múltiplas tentativas levadas a cabo, sem êxito, por investigadores matemáticos para desenvolverem um modelo matemático que permitisse definir alguma capacidade de previsão sobre qual a fila que valeria a pena escolher.
O que é ainda mais exasperante, por vezes, é que, não se tratando de filas para pagamento de uma qualquer portagem ou decorrentes de um dos muitos (demasiados) acidentes vulgares nas estradas portuguesas, a lentidão ou paragem do trânsito e a formação das malfadadas filas apenas tem a ver com a excessiva moleza de uns poucos de cidadãos que resolvem ser “hipercumpridores” nos momentos mais mal escolhidos. Mais uns quilómetros de paciência e, de repente, como que por artes de magia, o trânsito torna-se normalmente fluido.
Quer isto dizer que o fenómeno é absolutamente aleatório, tão casualmente aleatório que o próprio cálculo de probabilidades nele não encontra base de sustentação.
A questão das filas de trânsito funciona como uma perfeita metáfora. A política, em Portugal, parece, às vezes, um fenómeno de curso semelhante. Se retirarmos do cenário a previsível fila da ortodoxia, a “verdadeira” fila, a fila que é fila do princípio ao fim e que (só aparentemente) não traz surpresas, e olharmos para as filas ao lado daquela em que estamos situados, o espectáculo é surpreendente e chamativo para o observador atento. Desde uma marcha por vezes pouco perceptível que vai procurando o rumo e a segurança possíveis, tentando manter as referências sobrantes na estrada sem sinalização, à desestruturada marcha neoliberal, até ao vale tudo, inclusivamente tentar progredir pelas bermas, os cambiantes estão todos presentes. E as mudanças de fila surgem, de quando em vez, de onde menos se espera.
Claro que o verdadeiro interesse está nos metafóricos condutores, singulares ou colectivos eles sejam. Há mudanças de fila arriscadas mas estonteantes, pela frieza e calculismo que denotam, ou arrepiantes pela inconsciência que revelam. Até há quem se deixe ficar aparentemente pela berma, em período de descanso, para ver se as memórias se limpam. E se volte a atirar para a cabeça da fila, tentando complicar ainda mais o trânsito, confiante que haverá mais estrada, mesmo que não faça a mínima ideia aonde vai ela dar e que seja necessário fazer outros despistarem-se… Isto nas estradas nacionais e nas auto-estradas em obras, que nas estradas municipais o trânsito é diferente, é mais de animais atirados para a via a ver se provocam o acidente, que se forem só atropelados não faz mal. Afinal não passam de animais, não é?
Assim vai dando gozo conduzir em Portugal. E nunca houve tanto carro novo e de tão alta cilindrada. Eu gosto muito de conduzir em Portugal!

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