Estágio

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Nunca o tinha visto. Mas imagino-o a deitar-se tarde, noite dentro, já madrugada de sábado, a taberna a fechar, ele a arrotar a linguiça assada, o tinto do vinho nos dentes, o sabor a cabeça de borrego na boca, o canivete engordurado na algibeira, uma música dos Ganhões a entoar-lhe dentro da cabeça. Imagino-o com a boina de lado, a calça a cair, a fralda da camisa de fora, um cigarro atrás da orelha, a bota caneleira agarrando-se como podia à calçada, resvalando no passeio, os olhos semicerrados, raiados de vermelho, a passada incerta subindo a rua. Imagino-o encostado à parede, as mãos em concha, um dedo na pedra do isqueiro, tentando acender o cigarro e a orientação. Imagino-o parado à porta com um molho de chaves na mão e a fechadura demasiado pequena para tanto escuro e tanto álcool. E vejo-o a entrar em casa, a chocar com o móvel de <i>hall </i>de entrada, a jogar a mão e não encontrar o interruptor – que mania que as mulheres têm de mudar os interruptores de sítio. Entra na cozinha, a mesa ainda está posta, era caldo verde e carne estufada, amanhã vai tudo para o cão. Ouço o desassossego do cão no quintal, o relógio da sala a bater as quatro da manhã, a mulher a acender a luz do quarto. Tem que se ir deitar, amanhã vai apitar o Palheirense.
É já meio-dia. Imagino-o a abrir os olhos a muito custo, a cabeça ainda com os Ganhões a actuarem lá dentro, a boca a saber a pimentão de horta e o estômago afogado em azia. Imagino-o a levantar-se trôpego, a tomar um duche de água fria, a dispensar o jantar de couve, a comer só um caldinho Knorr e a beber uma garrafa de água das pedras.
Imagino que lá fora já o carro do árbitro apita a chamá-lo. Já vai. Mas o saco não está pronto. É preciso reunir bandeirinha, equipamento, toalha. Parece que está tudo. Imagino-o no caminho, dentro do carro, a dizer mal da vida, oh homem não me digas nada, ontem apanhei a camada.
Imagino-o a chegar ao Martinho Nabiça na Aldeia de Palheiros ainda dormente, a entrar no balneário a custo, a abrir o fecho do saco, a tirar a bandeirinha amarela, os calções, a camisola, a procurar em vão o resto. Tinha-se esquecido das meias e das botas. Imagino-o a dizer olhe que há destinos, a ir ter com o delegado do Palheirense à procura de umas meias e dumas botas que lhe servissem. Meias arranjaram-se, botas é que não havia o número. E já eram dez para as três. Como a necessidade aguça o engenho e os jogos começam às três, lá se desencantaram uns sapatos na arrecadação da cal.
Já as equipas, o árbitro e o outro fiscal de linha estavam dentro do campo quando o homem entrou no recinto de jogo. Visto de perfil parecia ele que trazia a bola do jogo debaixo da camisola amarela. Duas valentes nódoas eram bem visíveis na zona do peito – bem podiam ser as insígnias da pipa. O calção preto, anormalmente justo e curto, expunha dois pernões rosados e a remediar o esquecimento trazia calçados uns sapatos de vela brancos e umas peúgas da raquete. Era um misto de juiz auxiliar e jogador de ténis, a simbiose entre um árbitro e um enfermeiro do Hospital de Beja, a síntese entre um fiscal de linha e um alemão de férias no Algarve.
É o que dão os estágios à sexta-feira à noite até às tantas.

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