Este país não é para velhos?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

David Marques

Mesmo os mais desatentos da realidade futebolística nacional têm certamente ouvido falar da má forma dos principais clubes da capital, dois crónicos candidatos à conquista dos títulos em disputa no desporto-rei em Portugal. No caso particular do Benfica, os comentários críticos ao desempenho dos jogadores constituem uma prática quase generalizada, e digo quase, porque um destes jogadores tem suscitado avaliações positivas por parte de muitos comentadores da praça. É o caso de Rui Costa, um jogador invulgar por várias e diferentes razões. Em primeiro lugar, destaca-se pelo facto de lhe ser reconhecido especial apego e dedicação ao clube da águia, algo que, nos tempos que correm, pouco valor assume nesta actividade de milhões. Por outro lado, carrega consigo uma invulgar longevidade, para os padrões nacionais bem entendido, em particular na posição que ocupa e no contexto de uma actividade física permanente e desgastante, que leva a que a grande maioria dos atletas atinjam a reforma dos grandes palcos antes dos 35 anos.
Quase a concluir 36 anos, Rui Costa tem sido classificado por várias ocasiões como o jogador mais valioso da sua equipa, facto que nunca deixa de ser sublinhado, pela maioria dos comentadores e opinadores, com expressões de profunda ironia. Frase como: “Lá vem o velhote salvar a situação” ou “Teve que ser Rui Costa a desequilibrar”, associadas a um destaque excessivo que se dá aos feitos do jogador, contêm em si mais do que o simples e devido reconhecimento do valor de um profissional. São na sua maioria comentários que, de forma consciente ou não, carregam uma visão depreciativa do papel que um jogador como Rui Costa pode assumir. De facto, o que sobressai é a expressão de aparente surpresa pelo facto de ser um indivíduo em fim de carreira a assumir algum protagonismo numa equipa, como se a qualidade fosse algo que se perdesse com o tempo ou que dependesse exclusivamente da forma física.
Esta é contudo a forma de pensar dominante e aqui o futebol é apenas um exemplo. Nas outras áreas profissionais assistimos ao mesmo fenómeno, assim com na esfera social e familiar. Já não há lugar para os “cotas”! Muito valor se atribui à formação, à juventude, à adaptabilidade, ao contrário de características e competências que só se ganham com a experiência – a ponderação, previsão, capacidade de gestão do tempo, entre outras que vão deixando de figurar entre a lista das prioridades.
Não são poucos os anúncios de emprego que, mesmo que para posições de responsabilidade, estabelecem limites etários na casa dos 35 quando não mesmo dos 30 anos de idade. E não se tratam de profissões de desgaste rápido como a de futebolista. São profissões executivas, de escritório, que poderiam beneficiar do traquejo, da experiência, das aprendizagens próprias de um percurso profissional.
O mesmo se passa noutros domínios da sociedade. As famílias encaram cada vez mais os seus mais velhos como “problemas” em vez de os entenderem como “recursos”. Noutros tempos pediam-se e escutavam-se as opiniões e os pontos de vista dos mais experientes. Hoje, parece não haver espaço para a sabedoria. Será que se justifica perder todo esse capital? Será que podemos continuar a desperdiçar desta forma o conhecimento e a experiência acumulados? Não me parece. Algo tem que mudar nesta sociedade consumista e mediatista, em que tudo é descartável, que se resigna a deitar fora o que é velho e usado e a valorizar apenas o que é novo. É uma mudança necessária que passa por todos nós, e também, principalmente, pelos mais velhos. Homens e mulheres que após os cinquenta não se devem resignar a um papel menos relevante na sociedade, quer do ponto de vista profissional, quer social. É interessante observar que em Espanha existem associações específicas de desempregados com mais de 40 anos de idade, o que revela uma organização e uma procura de soluções que pode servir de exemplo. Noutros domínios, como o do voluntariado existem já algumas experiências de organização mas que podem e devem ganhar outra dimensão. Quanto ao resto da sociedade, importa que sejamos capazes de construir uma nova cultura de valorização da experiência nas organizações, nos núcleos sociais e nas famílias. É uma questão de justiça e de desenvolvimento.

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