Essencial e acessório

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

<b>1. </b>Escrevo estas linhas horas depois de ter acompanhado o dr. Rui Sousa Santos na sua última viagem! A notícia encontrou-me na cama, numa manha gélida de sábado, e apesar de ter quatro mensagens com o mesmo texto, senti necessidade de ligar a um amigo para confirmar a notícia! Não era – e deixe-me sublinhar este ponto para evitar hipocrisias – amigo do dr. Rui Sousa Santos, com quem tive tantas convergências como divergências, mas alguém que aprendi a respeitar, pela força com que lutava pelas suas convicções, pela frontalidade da sua divergência, pelo sentido cívico de alguém que tendo uma carreira onde se ganha bem, tinha paixão pelo serviço público!
João Espinho escreveu no seu blogue, ao comentar a notícia, que a morte é uma besta! Como tantas outras vezes discordo dele, penso que coloca as coisas na perspectiva errada: a vida é que é uma besta!
A brutidade cruel de uma morte não anunciada, especialmente de alguém que estimamos, obriga-nos a ponderar o sentido da vida, a meditar sobre as nossas escolhas, os nossos percursos, os nossos erros e falhas, as parvoíces que fizemos no nosso percurso! Mostra-nos de forma nua, crua e bruta como a vida é algo absolutamente raro e precioso para desperdiçarmos em amuos absurdos, na cobiça tresloucada pelos bens materiais, em guerrinhas estéreis e histéricas. Sobretudo, importa aprender a viver com decência, com honra, valores e princípios e, quando chegar a inevitável hora, ter a certeza de que se viveu, poder sorrir e dizer que fomos felizes, que vivemos, que não nos limitámos a estar vivos!

<b>2. </b>Perco a noção de quantas vezes falei do centro histórico de Beja, nestas e outras crónicas que subscrevo! Mas sei que foram muitas! Ou quiçá até demasiadas! Há uns tempos, um dos meus amigos comentadores anónimos, parodiava-me, sugerindo que o Pulido Valente me oferecesse a Praça da Republica para brincar aos eventos!
Gozem-me o quanto quiserem, mas defenderei sempre que a riqueza das cidades está na sua história e só conseguir conjugar o passado com o presente nos garantirá o futuro! E no último ano, a Praça da República, em Beja, tem tido uma dinâmica muito interessante, que merece ser sublinhada e aplaudida! Claro que todos vamos desejar sempre mais, mas quando os Virgem Suta encerrarem este ano, será o quarto ou quinto evento significativo que a Praça recebe, invertendo uma tendência de décadas onde esta foi definhando, lado a lado com a cidade!
Infelizmente por estes dias, muitos ateus e alguns agnósticos vão rezar afincadamente para que na passagem do ano chova horrores, para na semana seguinte encherem os blogues de comentários extasiados a festejar o fracasso da passagem do ano, recordando o “tempo da outra senhora” onde tudo era perfeito e fantástico! Porque infelizmente há demasiados e mesquinhos interesses em jogo, pessoas, associações e empresas com dinheiro a ganhar ou a perder, profunda mesquinhez, uma paixão pela maledicência e uma imensa incapacidade de aceitar a diferença!
Noticias como a desta semana, na sua bruteza, obrigam-nos a pensar, a distinguir o principal do acessório, a perceber que há coisas mais importantes do que aquelas com que estragamos os nossos dias! Porque sempre que morre alguém que ama Beja, Beja fica mais triste, fica mais pobre, fica com menos uma voz para a defender dos bastardos que usam a cidade para se beneficiarem!

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