Espiga

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Aurora.
Conheci-te numa noite de Verão, lembras-te? Ficámos a conversar noite fora sentados num banco de jardim, e as palavras não se esgotaram até ao momento em que fomos interrompidos pela rega automática da relva. Encharcados, trocámos as palavras pelo riso. Nessa noite vi pela primeira vez o azul dos teus olhos resplandecer quando falavas naquilo em que acreditavas, que defendias. Voavas. Foi amizade à primeira vista. Talvez por discordarmos tantas vezes. Lembro-me que fui para casa a acreditar que o mundo podia ser melhor. Os teus olhos diziam-mo doce, sincera e ingenuamente.
Moço da aldeia com um quintal do tamanho do mundo. Chegaste e não soubeste, não quiseste, ficar quieto. Tu e o clube dos cinco. Recordo-me agora de mil e uma histórias. Recordo-me especialmente da força e da vontade que irradiavam de ti. Do sorriso desbragado. Da saudável loucura e dos sonhos. Dos mil e um projectos. “Bora lá moços!”. Tinhas o dom inato de conseguir elevar os outros ao cimo do monte mais alto. Tocámos juntos muitas auroras burealis.
Lançaste a semente à terra e aqui desbravaste caminhos virgens. No palco, nas gentes, nas mentes. Lembras-te dos sussurros de estranheza do início? Dos olhares curiosos. Mas tu tinhas chegado para ficar e fazer algo por esta terra que passaste a chamar tua (quantos que aqui nasceram não lhe dedicam metade do amor que tu lhe ofereceste).
Não consigo deixar de sorrir agora que me lembro como cantavas mal como chegaste. Mas querias cantar na tasca e esse pequeno pormenor não te impediu de te encostares ao balcão e encheres o peito de orgulho. Tenho a dizer-te que melhoraste muito. De capote e gorro de orelhas, entre outras vozes o teu “ Serpa de Guadalupe” não soava assim tão mal.
Chegaste e depressa te impuseste nas nossas vidas como o moço que todos conheciam de sorriso e coração aberto que não se escusava a um bom confronto de opiniões. Confronto que, aliás, procuravas, talvez por isso todos levassem em consideração o que tinhas para dizer. Acreditavas piamente que tudo se resolve a falar e que só discutindo as diferentes visões de cada um se pode chegar a um objectivo comum e a uma amizade, a um projecto, a uma comunidade, a um mundo melhor.
Soubemos um dia que estavas doente. Tinhas 25 anos e uma casa com um quintal do tamanho do mundo. Do nosso medo brilhou sempre a tua esperança, a tua força. “Então moços, vamos lá animar”. Foi sempre assim durante seis anos. Penso hoje que tu nos apoiaste mais do que nós a ti. Capitão do teu destino, viveste até ao fim com um sorriso nos lábios e um brilho azul nos olhos. Descobriste, aprendeste, fizeste-nos pensar nas infinitas dimensões da vida e da morte.
Sei que não nos permitirias a tristeza. A vida é demasiado importante para nos perdermos em comiserações. Por isso, agarrados à força que só tu tinhas, continuamos a tentar subir aos montes mais altos e a tocar auroras burealis. E lá, envoltos no teu sorriso de espiga dourada ao sol, encontrar-nos-emos sempre outra vez.

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