À escuta

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

David Marques

A primeira vez que li a palavra “escutas” num dos muitos títulos que fizeram manchete na imprensa portuguesa durante as últimas semanas, fiquei na expectativa de que finalmente se dava relevância pública a esse grupo de jovens solidários de calções, que percorrem os campos e as ruas a ajudar as velhinhas a atravessar na passadeira. Infelizmente, apercebi-me que eram outro tipo de “escutas”. Para meu espanto, parece que só se descobriu agora que todos se escutam uns aos outros, neste pedaço de terra à beira mar plantado. Afinal de contas aqui na nossa terra essa história das escutas é o pão-nosso de cada dia. E não é preciso nada dessas tecnologias modernas que se vão descarregar nos sites da internet para ouvir as conversas nos telemóveis ou adquirir nas lojas de especialidade. Basta passar uma pequena temporada numa das aldeias e vilas do nosso país: basta um postigozinho meio aberto, um ouvido mais atento no café ou na farmácia para criar um dossier completo sobre todos e cada um dos cidadãos. São fantásticas as técnicas desenvolvidas por estes técnicos superiores da escuta formados na experiência feita e na herança genética de gerações, que só é de admirar que o SIS, PSP, GNR e demais serviços de informações públicos e privados não recorram a esta base de recrutamento. Talvez esteja na hora de começarmos a valorizar este potencial e esta vocação dos recursos humanos da nossa região. É importante referir que as competências de todos nós, “escutadeiros” activos, não se ficam pela simples técnica de escuta. Nós desenvolvemos uma outra faceta da nobre tarefa de escutar a vida dos outros (não confundir com “ouvir os outros”, coisa completamente diferente), aquilo a que alguns especialistas designam por “escuta criativa”. Efectivamente, somos profissionais qualificados e hábeis de tal forma que construímos novas histórias sobre a vida das pessoas e das organizações, acrescentando à realidade novos factos e novos dados. Ou seja, em muitas ocasiões sabe-se o que existe e o que ainda não existe. É um fenómeno fantástico que permite que certos homens ganhem a fama de ter quatro filhos de outras tantas mulheres mesmo que esteja clinicamente provada a sua esterilidade, que certas mulheres tenham mais relações adulteras que pares de sapatos, que certos funcionários públicos tenham feito mais desfalques num ano do que o número de filmes realizado pelo Manoel de Oliveira durante a sua vida ou que certas empresas e associações já tenham falido mais de 147 vezes nos últimos seis meses. Pode-se dizer que é uma espécie de <i>Second Life </i>sem recurso a novas tecnologias.
Desenganem-se aqueles que julgam ver nesta prática uma “entretenga” exclusivamente alimentada por invejas. Nada mais errado. Efectivamente, são práticas de recolha e de gestão de informação que procuram prevenir o surgimento extemporâneo de quaisquer fenómenos de terrorismo social, empresarial e matrimonial que ponham em causa o <i>status quo </i>instituído. A técnica privilegiada é a da antecipação. Criam-se novas realidades virtuais antes que a realidade dos factos nos surpreenda. Afinal de contas levou muito tempo a construir este estado de coisas e não é conveniente que surjam agora indivíduos, sem qualquer regulação, a criar novos factos, novos modos e hábitos de vida.
Trata-se de todo um universo e um historial de regulação social que em nada é valorizado no discurso político. E surgem agora as escutas telefónicas em grande força na agenda pública. Será esta mais uma consequência da aposta na tecnologia por parte do Estado português? Existe toda uma cultura e uma tradição de escutas bem portuguesa que parece estar esquecida e ao abandono. Mesmo por parte das instâncias nacionais e comunitárias. Para quando uma Comissão Parlamentar para a Fofoquice? Para quando um sistema de incentivos aos profissionais da escuta activa e criativa de vizinhança? Até quando vamos esperar pela criação do Instituto Português do Boato? E o estatuto profissional do “cusco”? Este é o momento para lançar este debate. Não se pode deixar passar esta oportunidade de relembrar este património nacional, traço marcante da nossa identidade, que poderá vir a ser ameaçado face a esta impressionante deriva tecnológica que cavalga os <i>bytes dos media</i>.

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