Emprego e ineficácia

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Dário Brissos

Foi com alguma ansiedade que aguardei a publicação da última crónica de opinião da jornalista Margarida Janeiro. Uma verdadeira trilogia ao estilo de Hollywood, com acção, suspense, um elenco conhecido por todos e uma história baseada em factos reais.
O argumento foi escrito por quem está, ou esteve, no desemprego. Alguém que tem, ou teve, como dever a apresentação quinzenal no Centro de Emprego, ou noutro. Alguém que desesperadamente procura, ou procurou, emprego na sua área de formação, ou noutra.
A protagonista da história podia ser qualquer um de nós, pois quem passou ou está a passar por uma situação de desemprego identifica-se facilmente no enredo. Guardo religiosamente o dossier que me foi entregue pelo Centro de Emprego, em 2006, quando estive desempregado por falta de colocação na área da educação.
Esta trilogia fez-me vasculhar a gaveta dos arquivos e lá estava ele! O dossier de capa transparente, carregado de informação que deveria ser útil na procura de emprego. O evocado “Guia Prático” pouca utilidade lhe dei, porque percebi na altura que eu já fazia o que o guia queria que eu fizesse. Quando deixei de ter direito ao subsídio de desemprego, deixei também de cumprir as apresentações, na época apenas obrigatórias para quem auferisse dessa regalia.
Cansado de procurar emprego e de enviar currículos, frustrado por nem sequer ser seleccionado para entrevista e fodido com o sistema de ensino, resolvi mudar de “direcção”.
Desisti de querer ser professor!
Resolvi abdicar do grau académico e procurar emprego noutras áreas. Porque não? Quantos licenciados estão atrás de uma caixa registadora, ou nas obras ou a conduzir um camião?
Nessa altura comecei a obter respostas do tipo “O sr. tem habilitações a mais!” ou “O sr. não tem o perfil que procuramos!”, entre outras.
Afinal, a Procura Activa de Emprego não previa esta situação, o que deitava completamente abaixo o Plano Pessoal de Emprego de qualquer um. Querer trabalhar deveria ser um motivo mais que suficiente para o conseguir, certo? Errado! Para conseguir emprego não se pode ser muito habilitado, não vá o patrão correr o risco do empregado saber mais do que ele.
Após centenas de currículos e auto-propostas entregues, houve um episódio que naquela altura me pareceu uma autêntica vergonha. Uma violência! Hoje acho piada e pergunto-me se aquela situação aconteceu realmente ou se não terá sido antes um pesadelo.
Recebi um telefonema da estação dos Correios de Beja a perguntar-me se ainda estava desempregado e se estava inscrito no Centro de Emprego. Sem conseguir disfarçar um sorriso, respondi que sim. Do outro lado, perguntou se estava inscrito há mais de dois anos, ao qual respondi que iria fazer os dois anos no próximo mês, confiante que finalmente tinha aparecido uma vaga de emprego e que, por isso, poderia sair daquela situação marginal, delinquente e malandra. A minha contida euforia rapidamente desapareceu quando, do outro lado da linha, a voz masculina informa que procurava um candidato que estivesse no desemprego há mais de dois anos. E desligou!
Hoje acho piada a este capítulo sobrenatural, desumano, e prefiro acreditar que tudo não passa da uma fantasia. Infelizmente, situações como esta existem por todo o lado, onde os filhos e os afilhados conseguem sem o menor esforço o que tantos lutaram para o conseguir…
Em mais de dois anos que estive desempregado nunca tive qualquer tipo de ajuda do Centro de Emprego e nem nunca fui proposto a qualquer vaga de trabalho que tivesse aparecido no mercado. O interesse deles era colocar os desempregados a ter formação para que, estatisticamente, saíssem do desemprego, reduzindo dessa forma a taxa de desemprego que insiste em aumentar todos os anos.
Se nem todos os filmes de Hollywood têm um fim, também a referida trilogia nos leva a ter essa suspeita, ficando então ao critério de cada um imaginar um final para ela.
Espero que esse final seja divertido, porque para tristezas já basta a realidade em que vivemos…

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