E não chove…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

Faltava a seca! Como se há anos ouvíssemos falar de outra coisa senão de crises. É a crise financeira, a crise energética, a crise climática… Esta ao menos passa por inocente que, como se diz, “o Homem felizmente ainda não consegue mexer no clima”. E diz-se muito erradamente para nosso mal, que o clima, mesmo comandado pelo sol, já sofre efeitos da nossa mão sobre ele. Comparados aos do sol podem ser efeitos pequenos, mas comparados com o calor e o frio que suportamos ou com a chuva e a seca que sofremos, podem fazer a diferença entre viver ou morrer. Não é pouco e já está a acontecer. É talvez o problema complexo por excelência, e perante ele toda a ciência do mundo não é demais. Mas havemos de lá chegar, oxalá a tempo. Não chove, mas há-de chover…
A outra crise, a financeira, também é complexa e não deixa ninguém imune a ela, mas pode ser explicada usando termos correntes tais como “abuso de confiança”, “burla”, “má-fé”, “crime”, ou “cobardia” e “ganância”. Em geral as pessoas entendem que a sua origem tem responsáveis e é censurável, mesmo que a força dos culpados seja muito superior à das justiças. Percebem também que ela atingiu o coração da democracia e da nossa civilização, mas sabem que sabem isso, e dessa consciência se há-de fazer futuro. Não chove ainda, é certo, mas há-de chover…
Já a crise de energia é muito mais arrediça. As palavras simples não nos levam mais longe do que a facturas esquisitas e a falsos culpados e, na confusão deste problema obscuro, todos passamos ao estatuto de parvos que pagam.
Há na energia algo a mais que escapa aos nossos hábitos de entendimento mesmo que errados, como no clima, quando falamos do “tempo que faz”, ou do dinheiro com a “carestia”. A própria palavra “energia” parece menos usual e num engano pior dizemos “a luz”. É que se para o clima se pode falar de complexidade e para a finança de charada, para a energia, que também é ambas as coisas, temos de pensar em enigma. Um enigma fascinante que se arrisca a tornar-se trágico para a nossa sobrevivência como espécie ou como civilização, no singular e no plural.
Chegamos à situação em que o conhecimento como cultura científica e técnica pública se tornaram o factor mais frágil e mais decisivo para a vencer as crises. Contudo, o assunto é de uma beleza extrema e acessível a partir dos conteúdos escolares básicos que todos os jovens aprendem, mas esquecem à falta de continuidade cultural.
Nos próximos 50 anos pelo menos todos viveremos em crise energética. Todos teremos de usar fontes de energia variadas, pagar mais caro por elas, e ainda pagar para que haja um dia uma fonte de energia capaz, limpa e pagável. Até lá, para não morrermos à fome, de frio, de calor, ou pior, às mãos uns dos outros, temos dois caminhos bem traçados: poupar e aprender. Poupar gastando menos e melhor, e aprender, para que a coberto dos enigmas da energia não nos seja usurpado o direito e a dignidade de decidir. Não chove e é preciso que chova, mas sem manda-chuvas.

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