Dois amores

Sábado, 7 Janeiro, 2012

Vítor Encarnação

Talvez por ter crescido paredes-meias com a Igreja, ter dado os primeiros passos durante a missa de Domingo e ele próprio ter feito de menino de Deus num presépio vivo organizado pelo senhor prior, sempre gostara do menino Jesus. Gostava dele e dos animais e do musgo e das palhas e da estrada de Belém e dos três reis magos e da estrela que os guiava e de S. José e de Nossa Senhora. Gostava deles porque no presépio não havia sangue, nem setas espetadas no corpo, nem espinhos cravados na carne como havia no altar.
Em casa comia a sopa para o menino Jesus não chorar e enquanto os outros meninos brincavam com carrinhos e piões, ele fazia presépios em Agosto.
A mãe, mulher temente a Deus, tornara-se ainda mais devota quando descobriu o marido com uma outra mulher. Não é de estranhar por isso que desde cedo ele tenha ouvido falar do pecado da carne e da luxúria. O que lhe fez alguma confusão foi saber que o seu pai e a outra mulher também estavam nus e em palhas deitados.
Quando cresceu e a evidência do corpo o envergonhava de fazer de menino Jesus, tornou-se acólito e aproximou-se mais do altar e das coroas de espinhos e das setas e do sangue.
Lia a Bíblia, punha a mesa para a ceia do Senhor, dizia as orações, confessava os pecados e a vontade em servir Deus. Vivia completamente entregue aos mandamentos. Nunca se vira, numa terra do Sul, uma tal dedicação ao reino dos céus.
Seguindo sempre a essência dos sacramentos divinos foi frequentar o Seminário. Aprendeu a noção de celibato, da necessidade de abstinência sexual e fez votos de castidade.
Mas, em cada noite dos seus dezassete anos, tinha de exorcizar o calor do corpo, afastar as chamas do inferno, prender as mãos atrás das costas. Vá de retro Satanás, a meio da noite e do corpo. E depois acordava culpado e expurgava essas culpas lendo os Evangelhos. E conseguia que o Senhor o salvasse de todas as tentações.
Contudo, um dia, também no dia do Senhor, ele teve uma aparição. Apareceu-lhe sentada numa mesa de café, bela, miraculosa, estonteante. Sentiu um chamamento, olhou para o céu e viu uma estrela que o guiava até ela. Chamava-se Maria de Jesus, mas ele não trazia nada para lhe oferecer. Neste caso ela é que tinha os tesouros para lhe dar. Ouro, incenso e mirra. E uns olhos divinais. E carne. E quando ele olhava para a carne e a desejava, sentia uma coroa de espinhos a rasgá-lo, setas a trespassarem o corpo. Lembrava-se da mãe traída e do pai e da outra mulher deitados nus na palha.
Começou a faltar a algumas aulas do Seminário. Queria ficar a ouvir os ensinamentos daquela sacerdotisa mundana e laica. Ela contava-lhe histórias de um mundo onde o pecado não é original e onde o prazer não nos condena ao inferno.
Gostava dela e gostava de Deus. Gostava de igual modo de Jesus e da Maria de Jesus. Queria continuar a ser filho de Deus, mas também gostava de ter filhos da sua deusa. Queria ser pastor de um rebanho de crentes, mas queria também ser pastor dos seus filhos e ensinar-lhes os mandamentos da igreja. Não achava mal conjugar o prazer em sentir Deus e sentir prazer em si. Saberia ser fiel ao Senhor e a uma filha do Senhor. E teria tempo para celebrar as missas depois de ter ajudado os filhos a fazer os trabalhos de casa. E depois da Eucaristia de Domingo iria almoçar fora com a família e rezariam todos antes de deitar.
Nele haveria espaço para tudo, pois ele é um homem de fé.
Optou por casar. Assim pode continuar a servir Jesus.
O contrário não seria possível. E ele gosta tanto da Maria de Jesus.

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