Dia 10 do mês de Junho

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

Muito a propósito disfarçado de domingo, o 10 de Junho deste ano escapa mal às ironias fáceis que a actual situação sugere. O caso não é novo e a história da data está marcada por sucessivos arranjos na sua atribuição de sentido. O facto que o denuncia é a repetida necessidade de retirar esta data da vizinhança de alusões a que é suposta não dar continuidade, sem todavia acabar diluída em simples contingências avulsas, quando o seu objectivo é o oposto, ou seja, lembrar com ela o perene no nacional.
Decisão republicana inspirada no movimento celebratório de 1880 e no protesto patriótico contra o ultimatum de 1890; assumida no Estado Novo como ritual da nação até aos seus sentidos mais sombrios; reabilitada na democracia por via da celebração de uma presumida diáspora, e agora convertida em operação de marketing tribal, o 10 de Junho tem vindo a resumir-se tanto mais à sua própria data, quanto mais longa se vai tornando a sua legenda explicativa: dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas no Estrangeiro. E mais constaria ainda, não fosse a decência ter removido a “raça”, e não ter ainda algum patrocínio aposto uma promoção de supermercado a esse dia.
A referência novecentista poderia até parecer hoje quase premonitória e de grande alcance cívico, mas não resistiria ao confronto com a tutela financeira, nem com o esvaziamento do significado nacional dos países, a braços com as globalizações. Quanto ao legado do Estado Novo, o ritual é hoje facilmente ultrapassado por banais produções de espectáculo, e o eugenismo felizmente desmentido logo nos conteúdos elementares do ensino básico. Já a ideia das comunidades portuguesas, que Adriano Moreira lançou nos anos 50, tem um alcance muito diferente, mas a solicitude interesseira pelas remessas dos emigrantes e as criativas identidades dos respectivos descendentes, diluíram a ideia no pitoresco duma volta ao mundo sentimental que regressa sempre ao lugar de onde partiu.
Fica o procedimento de comunicação, ou publicidade, e a obsidiante declinação das cores vermelha e verde, unindo na mesma confusão gráfica jogos de futebol, marcas de cerveja, slogans e danças guerreiras. É a “marca Portugal”, a fazer como todas as marcas, que parecendo marcar o produto o que marcam é o cliente. E, para além do condicionamento, está lá qualquer coisa?
Seria melhor voltar ao motivo inicial: a Camões.
Parece antigo, mas antigo é enganarmo-nos na velocidade do tempo e julgarmos que a pressa acelera a história. Não seria para “celebrar o vulto” sepultando-lhe a poesia na solenidade das homenagens, nem para lhe abusar da épica em patriotismos de altifalante. Seria mesmo para cantar, para o cantar. Pela beleza, pela profundidade, pela recôndita actualidade, pelo cosmopolitismo, pela luminosidade, pelo inesgotável consolo que a sua magnificência traz à alma.
Num belo dia de Junho, quase véspera do solstício, que melhor altura para cantar, e que melhor canto que o do poeta?

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