Desespero estival

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Nicolau Gonçalves

Nos últimos dias, tal como nos anos anteriores, é constatável a tendência irresponsável e absurda de noticiar o acessório, em detrimento do essêncial. Os mesmo que a apelidam de silly season são os que a promovem. Refiro-me a uma comunicação social sensacionalista, nacional, que rebuscam nas especulações e na espectacularidade motivos para noticiar, enchendo espaços de informação. E já nem os jornais, ditos de referência resistem.
Ora, no meio tanta espectacularidade eis que os magistrados do Ministério Público (MP) se batem em duelo de pares, numa demonstração surreal de quem bate mais forte. O exemplo que dão ao país, independentemente da estação do ano, é lamentável e irresponsável.
Há muito que se sabe – pelo menos se conversa – que um dos problemas da justiça está na incompreensível incapacidade do MP de se gerir a si próprio. Fruto da sua orgância e dos poderes diversos que pressionam e que politizam a sua acção.
A cada dia o nosso sistema judicial cai em desgraça e descredibiliza-se perante os portugueses, os empresários e os potenciais investidores. Já não há paciência para tamanha irresponsabilidade e o país não sobreviverá sem que uma reestruturação profunda ocorra. Não é aceitável que um sindicato de magistrados detenha o poder e determine na sua acção pressões ao próprio sistema judicial. Não é tolerável que um Procurador Geral da República seja impotente para resolver problemas graves de quebra do segredo de justiça ou de insubordinação.
O caso mais flagrante e que motiva toda esta polémica – como se esperava – é o do Freeport, não fosse o primeiro ministro (PM) parte envolvida. Pois bem, é ridiculo ter que justificar o óbvio, aquilo que a grande maioria dos portugueses já entendeu como tendo outras motivações que não as justificadas de interesse jurídico ou nacional.
Embora não queira acreditar na incompetência dos procuradores envolvidos na investigação, a verdade é que se torna incompreensível que argumentem a falta de tempo para inquirir o PM. E ainda mais revoltante é projectarem no ar da especulação, o que muito agrada a tal comunicação social sensacionalista, a suspeita ad eternum sobre um cidadão, que por acaso é PM.
Presumo que partilho com a maioria dos portugueses o choque perante a falta de responsabilização dos agentes envolvidos. Refiro-me aos procuradores do caso, mas também a um séquito de jornalistas, de comentadores e de analistas que incapazes de reconhecer o erro do que propagandearam e vaticinaram durante anos insistem em alimentar uma novela de distracção, bem na moda do desespero estival. Mas sobre isto não falam e não escrevem. Talvez seja do calor das razões.

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