Desejos para 2009

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

Existe uma regra tácita e silenciosa entre quem se dedica a fazer análise social e política: iniciar o ano com previsões. Eu próprio já pequei entrando nessa teia e no ano passado a minha primeira crónica neste jornal procurou fazer previsões para o ano recentemente enterrado: como em tudo na vida, acertei algumas e falhei outras. Cedo este ano à tentação do prognóstico (logo num ano que vai ser politicamente tão intenso) para dedicar estas linhas a falar de desejos.
E o meu desejo para o ano que inaugurámos é que seja o ano da ética, dos princípios e dos valores! Ao escrever estas palavras, quase que antevejo no rosto do leitor um sorriso de escárnio, um enfado em continuar a ler estas linhas, temendo que as mesmas se enroupem de ingénuo moralismo. Não desconheço que numa sociedade egoísta e hedonista, pregar a moral tenha laivos de disparate: no meu ensino, quando procuro transmitir o que é o Direito e qual a sua função, partilho com os meus discentes que o Direito apenas existe porque a sociedade é formada por Homens, pelo que só pelo recurso à existência de sanções e punições se consegue que a maioria da sociedade cumpra aquilo que devia espontaneamente ser cumprido.
Talvez desde sempre, mas com maior notoriedade nos últimos anos, fomos assistindo com perplexidade a uma infinidade de casos que nos fizeram crescer a convicção de que o “crime” compensa: desde pessoas com comportamentos de visível corrupção que continuam alegremente eleitas, processos judiciais que se protelam exasperantemente, outros que são arquivados por razões que a razão nem sempre conhece, a criação quase por geração espontânea de misteriosas fortunas cuja proveniência do dinheiro é suspeita, a proliferação de um bando de gente que vive alegremente sem trabalhar na dependência do Estado, a generalização de que o acesso ao mercado de trabalho não tem por base o mérito mas a arte de conhecer a pessoa certa, a adoração pela mediocridade e a bajulação da indignidade. Pelos exemplos que ficam expostos e por todos os muitos outros que poderiam ter surgido neste trecho, será que ainda faz sentido falar em ética, princípios e valores, nomeadamente pela pena de alguém que, por ser assumidamente agnóstico, não crê na divina justiça?
Porventura ingenuamente, acho que faz todo o sentido. Agora, neste exacto momento, quando a uma tremenda crise económica se junta uma crise de valores (ou terá sido esta a gerar aquela!!!), mais do que nunca urge falar de ética, valores e princípios. Apesar de não crente, sou personalista, pelo que, contrariamente à prática e ao fado lusitano, não procuro a culpa e responsabilidade nos outros. Não ignoro que é mais cómodo culpar o Estado pelas nossas muitas carências, os polícias e juízes pela criminalidade e corrupção, os patrões e os capitalistas pela crise económica, os vizinhos pelos problemas nas nossas ruas, aqueles que partilham a nossa intimidade por falhas e carências que são apenas nossas!
Sempre me fez muito sentido a frase de Kennedy: e este não é o momento de perguntarmos o que o país pode fazer por nós, mas para questionarmos o que podemos fazer pelo país; não é o momento de exigir coisas aos outros, mas de fazermos algo pelos outros! Em momentos de crise, especialmente num ano em que vamos ser convidados a fazer escolhas locais e nacionais profundamente importantes, exige-se a capacidade para sermos honestos connosco próprios, de forma a poder exigir a honestidade dos outros.
Falar de ética, princípios e valores é um dislate, porquanto não são meros conceitos de retórica que se teorizam. São realidades que se praticam, especialmente em épocas em que o caminho mais fácil e aparentemente mais confortável consiste em esmagar os outros, se constrói com deslealdade e desrespeito, procurando construir uma felicidade que é efémera e aparente em cima da infelicidade de outrem, colocando egoísmos privados acima dos interesses gerais ou, compactuando cumplicemente com todas as injustiças com medo de assumir a responsabilidade de levantar a voz para falar, seguido o trajecto do facilitismo.
As grandes nações (e as grandes pessoas) emergem nos momentos de crise e desespero, porque é nesses momentos que se desnuda a verdade de cada um: alguns escolhem o olhar indiferente e o desprezo pelo outro, demasiado centrados nos dilemas do seu umbigo; outros entendem que este é o momento de “arregaçar as mangas”, de procurar o sol mesmo num dia triste de Inverno, e procurarem ser parte da solução e não parte do problema.
Admito que os factos pareçam desmentir as próximas palavras: mas ainda acredito que se as pessoas caminharem numa mesma direcção, que se cada um de nós se esforçar por ser uma melhor pessoa, um melhor cidadão, um melhor trabalhador, um melhor empreendedor, se o fizer balizado pelos valores da ética, compreendendo que ninguém prospera na desgraça alheia, poderemos em conjunto emergir mais fortes do ano que agora começa. Se temos um grave problema económico, então que cada um de nós comece este ano a trabalhar com um pouco mais de afinco, de empenho, com maior simpatia, construindo um melhor ambiente laboral que se vai repercutir nas nossas empresas e produtividade. Se temos uma grave crise social, que cada um de nós tente dar uma ligeira parte de nós aos outros, porque o todo não é mais que a aritmética soma das partes.
Vai longa esta cartilha moralista: pessoalmente já teria interrompido a leitura porque não reconheço a quem escreve estas linhas legitimidade para pregar valores como os descritos! Mas este não é um texto escrito para os leitores! É um texto intimista de mim para mim. Quando muito, fica um convite a quem teve a suma paciência de chegar ao parágrafo final: que medite, que faça introspecção e que se junte a este que lhe escreve, porque se cada um de nós for mais exigente consigo próprio, podemos em conjunto construir uma vida, uma cidade e um país melhor…

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