Desalento ou esperança?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António José Brito

director do correio alentejo

Há longos anos que o distrito de Beja espera por efeitos concretos de uma esperança que sempre foi semeada na região pelos responsáveis políticos. Mas tirando alguns exemplos muito isolados, persiste por aqui um quadro de grande pobreza, com fraca dinâmica social, um tecido empresarial muito árido e um galopante envelhecimento da população.
Estes indicadores estão interligados e criaram um clima muito pessimista e tantas vezes desmobilizador. Não é fácil encontrar exemplos de novos investimentos empresariais ou de projectos que assumam o risco. Neste ambiente, é natural que haja uma “fuga” persistente dos jovens, muitos deles formados na região mas sem solução de emprego para fixarem aqui a sua vida.
Não é difícil perceber que o Baixo Alentejo sobrevive com o peso desmedido das autarquias, algumas empresas públicas e uma crescente influência das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), com os seus centros de dia, lares e jardins-de-infância.
Veja-se o exemplo da capital do distrito: é possível imaginá-la sem o emprego criado pela Câmara Municipal, Hospital José Joaquim Fernandes, Instituto Politécnico e EDIA? Seria muito complicado!
Nestes casos, há uma continuada estabilidade laboral, embora também exista, especialmente nas autarquias, um excessivo recurso a trabalhadores remunerados pelo Instituto de Emprego que, por causa disso, vivem em situação absolutamente precária e sem condições para definir um qualquer projecto de vida. Ainda assim, não se pode dizer que o clima seja semelhante no sector empresarial. As pequenas empresas que existem na região (porque há muito poucas empresas médias!) vivem dias complicados, debaixo de uma carga fiscal muito pesada e exigente, além de um quadro de concorrência como nunca se viu.
Hoje, no distrito de Beja, as empresas trabalham para pagar ao Estado, cumprir obrigações salariais e com fornecedores. Sob a alçada destes compromissos inabaláveis, resta pouco ou nenhum espaço para operar outros investimentos, planear maior dinâmica e, por via disto, criar mais emprego.
Será possível alterar este quadro? Muito sinceramente, continuamos convictos que ainda não é hora de deitar a toalha ao chão!
Os próximos cinco anos serão de muita mudança. Neste momento, já existem exemplos concretos de que alguma coisa está a transformar-se. Veja-se a dinâmica, protagonizada por empresários espanhóis, é certo, que está a verificar-se em toda a face agrícola entre Beja e a fronteira. E observe-se a crescente dinâmica das culturas hortícolas em vastas áreas do litoral de Odemira. É uma nova lavoura numa terra com tradição agrícola. E isso, certamente, vai ter mais implicações em diferentes sectores económicos. Sobretudo porque a água de Alqueva vai começar a chegar e a regar extensas áreas de terra.
Neste contexto, o aeroporto de Beja será um elemento fulcral para exportação dessas produções, mas também de captação de novos investimentos, seja no domínio da aeronáutica ou do turismo, onde começam a surgir projectos com alguma solidez e a dar passos muito concretos.
Perante isto, também é bom que algumas cabeças “abram” um pouco mais e entendam que há outros caminhos e oportunidades que é preciso agarrar. Isso faz-se com alguma coragem para assumir o risco, projectos inovadores e sustentados, vontade de trabalhar e de atingir objectivos sem estar dependente de apoios e boas vontades.

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