De aqui…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

O sentimento mais doce será, porventura, o de se pertencer a algum sítio – a certeza adquirida de se ser efectivamente parte de um qualquer todo. Poder-se-á, sem grande inquietação, renunciar a quase tudo – mormente ao que às materialidades da vida diz respeito –, mas dificilmente poderá o Homem conservar a sua humanidade renunciando à sua identidade.
Que tempo é este, que Alentejo é este, e que tempo é o deste Alentejo?… Que sonhos, que tudos, que nadas; que gente é esta que brota da sua terra revolta, que vidas são as que nascem do ventre quente deste pai indolente e calado… E que estranha paz é esta, a que repousa inteira na extensão inefável da planície, e se espraia displicentemente nela, e a impregna de uma qualquer sobrenatural calma que está acima dos homens e dos dias… Sucederá talvez que o Alentejo não seja sequer um espaço geográfico; talvez que ele seja, antes, o estado de espírito daqueles que o sentem como seu. Por equívoco, o seu nome consta nos mapas dentro de umas poucas linhas aproximadamente irregulares – Alto e Baixo, dizem, desconhecendo que os referenciais do espírito não são sequer verticais, nem tão pouco se conhece por que referenciais se regem as coisas do espírito.
De dentro do Alentejo, o tempo tem a sua própria forma de passar: ora decide demorar-se a alourar as searas quentes de pão, ora prefere enroscar-se, submisso, aos pés da azinheira contorcida pelas vergastadas de estações de que já ninguém se lembra, ora ali se deixa ficar, esquecido de si, a aquecer daquele calor que não vem só do sol, vem do bafo que produz a respiração da terra. O Verão do Alentejo não é uma estação do ano – é o tempo em que a natureza desce para perto das pessoas, e o calor que morde na pele, e a luz quente que fere os olhos e se cola aos corpos como num abraço apertado, são o cumprimento terno desse céu que desce para os homens.
No Alentejo coexistem dois tempos e dois mundos: o das anacrónicas personagens eternamente à soleira das portas, alheias a tudo o que não é aquele seu universo que, sendo tão pequeno, leva tanta coisa dentro; e o mundo que se foi mantendo necessariamente a par da realidade que galopa lá fora, e que tem tecnologias, progresso, aeroportos, civilização. Esse Alentejo que vive dentro de gente que, estando hoje, não é já de hoje, é talvez a mais frágil preciosidade que guardamos dentro destas poucas linhas aproximadamente irregulares. Talvez que um certo tipo de felicidade primordial viva insuspeitadamente debaixo dos lenços pretos e das roupas negras dessas mulheres congeladas para sempre num luto de que a própria memória já esqueceu o nome, e que parecem já ter nascido assim, velhas, e já de luto pela vida que haviam de ter… Dessas aldeias, desses ermos recônditos, desses bancos de jardim, desses jogos de dominó, dessas tascas, desse cheiro a vinho e a vida, não tarda que fique apenas uma memória ténue, uma saudade talvez, e uma e outra terminarão por ser irremediavelmente nada.
De aqui, deste Alentejo, sente-se o ir e o vir de um sopro difuso de mudança. Amemo-lo, enfim, com a sensibilidade funda e discreta de que este canto é exímio professor. Aos seus filhos, a planície falta como o ar, e da sua calma tem-se sede como de água…

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