Da sedução ao clientelismo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

A democracia, desde que os gregos a tornaram uma realidade institucional, aprovou a supremacia de um embuste face ao conhecimento verdadeiro e à competência técnica, política e moral que dele decorrem. O embuste veio, na democracia ateniense, sob a forma da palavra enganadora e sedutora: a opinião convincente e eloquente. Por isso, a democracia clássica empregou sofistas e ilusionistas do verbo, que preparavam os candidatos a cargos públicos a dominar com mestria a retórica, a demagogia, a persuasão. Ou seja, a democracia nasceu ferida deste pressuposto fundacional e estruturante: enganar da melhor maneira possível. Enganar a tal ponto que o justo possa passar por prevaricador, e o charlatão por sábio. Por isso a democracia clássica condenou Sócrates, que encarnava a negação dela, a recusa da convencionalidade oportunista, do relativismo ético, da subjectividade opinativa e volitiva. A democracia condenou a sapiência e a verdade porque a sapiência e a verdade tornaram-se, à luz do critério democrático, sufragáveis, transmutaram-se num parto aritmético, uma audiência, uma colecção de adeptos. E numa democracia composta de ignorância, obscurantismo e irracionalidade, a manipulação populista vence todos os argumentos, a impetuosidade judicativa das massas, hipertrofiada pelos cães de fila que a promovem, impõe-se a qualquer razoabilidade, anula qualquer deliberação ponderada e previamente dissecada pelo debate racional.
Antes era o verbo, e continuou nas democracias parlamentares modernas, pela voz dos representantes eleitos, intermediários palradores da vontade popular. Verbo elegante e encomiástico, ou feroz e demolidor, mas tão intenso e sublinhado que raramente se despedia da cápsula literária e da filosofice espirituosa. Os tribunos modernos eram uma delícia, a mimarem-se alegremente em disputa de habilidades, a apostarem tudo em duelos de vida ou morte política, na adrenalina do ganhador ou vencido absolutos. Ainda o verbo, portanto. E o povinho varria as avenidas pisadas dos caciques, desdenhoso de um circo que não compreendia.
Com a televisão veio outra democracia, exactamente televisiva. A imagem sucedeu à palavra. Primeiro a imagem dramatizada e encenada, depois a imagem extática e espectacular, e depois a imagem emocional e sexualizada. E o povo aplaudia alienado, transformado em espectador confuso mas risonho. Os parlamentos encheram-se de fatiotas charmosas, de poses telegénicas, e a política ficou refém do sensacional, da cosmética e da maquilhagem. E das operações plásticas, às vezes imperceptíveis.
Todas estas nuances democráticas foram subsistindo e convivendo umas com as outras, com predominância do que em cada época mais e melhor servia para enganar… Até que há uns anos atrás surgiu outro tipo de democracia: a clientelar, e outro tipo de político: o gestor de clientes. A política bestializou-se, porque a palavra é trunfo anacrónico e risível; a política acinzentou-se, porque a imagem saturou-se e minimal-repetiu-se, sem grande fulgor emocional. Despontou então e instalou-se o político-mafioso, o político-“padrinho”. É um cretino iletrado, assassina a gramática, veste mal como tudo, nem amantes tem para animar os jornais, e muitos deles nem sabem mentir como deve de ser. Mas não precisam. Basta que saibam gerir e articular bem os interesses das clientelas-“afilhadas” que servem: a clientela partidária (dirigente e militante), a clientela política que deriva promiscuamente da clientela partidária, a clientela empresarial (e suas estimadas famílias), e uma certa clientela religiosa, dos crentes-devotos amarrados ao partido como quem é para sempre do mesmo clube. O presente pertence-lhes. Sobretudo em tempos de crise. E o povo continua a trocar a festa da democracia (leia-se, eleições) pelos saldos nos centros comerciais. E não se farta.

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