Cucharro

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

A palavra soa rugosa como cortiça mas, na sua rudeza, mais que o objecto rústico que designa, ela evoca uma cultura e uma civilidade da água. Estamos perto de mais uma celebração da “água”, já a 18 de Abril, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, este ano dedicado ao “Património da Água”, pouco depois de termos tido o Dia Mundial da Água a 22 de Março, e num momento em que por todo o mundo a água toma o passo do petróleo na condução sinistra dos caminhos das guerras.
Eterna causa de barbaridades e de civilizações, só na era dos satélites veio a água do mundo a ser calculada e desde aí não mais parou de crescer o saber e a preocupação com ela. Para lembrar apenas um desenvolvimento recente, a primeira “Década da Água”, no início dos anos 60, foi lançada pela UNESCO, facto duplamente significativo: pela escala mundial a que, enquanto agência da ONU projectou o problema, e por se tratar de uma organização científica, cultural e educacional e não especificamente hidrológica.
A água é sem dúvida um recurso natural, mas é na sua dimensão humana e social que está o mais complexo do seu problema hoje e também a chave da sua solução. A água que tanto nos preocupa, não é a água toda, aliás abundante e permanente no planeta; é uma água específica, rara, mal distribuída, vulnerável e instável – a água potável acessível. Rara porque é apenas 0,02% da água da Terra; mal distribuída porque na sua maior parte está longe dos lugares onde é mais precisa; vulnerável porque nela se dilui quase tudo; e instável porque só existe em permanente transfiguração, entre nuvem, chuva, rio, mar, gelo, rochas, plantas, animais…
É esta condição que traça o destino social do seu valor. A água de que precisamos só serve se circular e, mesmo retida, só vale se for renovada, usada, depurada e devolvida à circulação, num movimento que é uma lição para a vida humana, talvez a própria lição da humanidade da vida.
No próximo dia 18, neste Alentejo atlântico, entre prodígios tecnológicos e arcaísmos etnográficos, por carência e por abundância, a cada ângulo da paisagem se poderá encontrar motivo para a celebração da água e dos seus patrimónios, mas bastará até um simples cucharro.
Quando encontramos uma daquelas pequenas fontes escondidas na frescura de uma sombra, em meticulosas cúpulas de pedrinhas encaixadas, guardando a água como um segredo ou uma oração, junto a ela está quase sempre poisado um cucharro. Talhados na cortiça em forma de grande colher redonda, para deles se sorver a água sem os levar aos lábios, são objectos sem dono, oferecidos à sede de todos como a própria fonte. Neles está inscrita uma cultura de considerações anónimas pelos outros, que também têm sede e que virão a seguir, ou que vieram antes e em quem confiamos. Uma lição de partilha e de civilidade, de reciprocidade e de circulação social de valores, afinal aquilo mesmo que nos humaniza na água e que faz nela o sentido mais profundo da palavra património.

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