Comemorar Abril!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

No momento em que escrevo esta crónica deverão estar a soar, por todos os recantos do nosso Alentejo, os habituais estalidos do foguetório de artifício com que muitas autarquias e associações celebram anualmente o dia 25 de Abril. Alguns cartazes anunciam a festa para as 00h00, enaltecendo assim os feitos do novo dia, outras preferem assinalar as 24h00 da véspera, festejando desta forma o fim da “longa noite negra da ditadura”. Ao fogo de artifício juntam-se os “Vivas” à Revolução, a que se associam discursos inflamados vitoriando as “conquistas de Abril”, a democracia e todas as outras coisas boas que a data nos trouxe. Não faltam, também, as palavras de ordem, algumas de pouco sentido e nulo senso, apregoadas à mistura com os tradicionais ataques aos rostos dos governos da nação que, coisas da democracia, foram metidos a ocupar as cadeiras do poder precisamente por que vivemos em liberdade e com a liberdade de escolher quem nos governa. Nesta semi-contradição, que até se compreende, misturam- -se sentimentos antagónicos, de amor e ódio, de vida e morte. O ponto alto das oratórias, e que costuma ser a cereja em cima do bolo, é enunciar o que se prometeu e não se fez, o que se devia ter feito e já não se vai fazer, isto é, enumeram-se os itens que permitem depois rematar com um “falta cumprir Abril”.
Não sei se a grande maioria dos portugueses ainda sente como seu este fervor das locuções comicieiras ou se, pelo contrário, prefere festejar a data de forma mais simbólica, com um cravo na lapela ou na jarra lá de casa, ou até mesmo sentado à volta de uma mesa com um grupo de amigos e onde não faltarão, para além dos cravos, outros símbolos menos revolucionários.
Comemora-se também a data com discursos institucionais, sendo a Assembleia da República o palco escolhido pelos agentes políticos para dizerem de sua justiça, para, com pompa e circunstância, desenrolarem epístolas impregnadas de adjectivos e muitos advérbios. Termos como Igualdade, Justiça e Liberdade fazem parte, invariavelmente, das prelecções dos representantes dos partidos e do Presidente da República. Para além dos deputados – os representantes do povo – e de umas galerias compostas por personalidades populares mas que de povo pouco têm, estão também as TV’s e os jornais, aquelas transmitindo a gala em directo, estes transcrevendo aquilo que lhes pareceu o essencial das oratórias, sendo habitual haver umas estranhas interpretações – análises – às supostas entrelinhas do discurso presidencial, que apelidam de “avisos” e de outras coisas que julgam importantes para o equilíbrio institucional.
Não me recordo de nenhuma sessão solene onde se tenha dito alguma coisa de importante para o país ou para os portugueses. Tenho também a certeza que a maior parte destes ignora o que ali se passa, respondendo assim com a sua indiferença à vacuidade das prédicas.
Tornou-se, pois, a comemoração anual do 25 de Abril num ror de coisas de importância escassa ou nula. É, para a maioria, um dia feriado que se goza em múltiplas actividades, poucas ou nenhumas relacionadas com a data.
Nós, os que amadurecemos em pleno período revolucionário, poderemos ainda explicar às proles o valor da democracia e a importância da liberdade. Explicar que os nossos adversários na política não são os nossos inimigos, como os que povoam os jogos da era moderna e que tanto atraem os nossos jovens. Demonstrar que vale mais a pena defender a liberdade de expressão do que amordaçar as nossas ideias ou tentar calar a dos outros. Tentar fazer compreender que nem todos os que proclamam a democracia são seus amigos, usando-se dela para, logo que possível, a diminuir ou mesmo aniquilar.
Em suma, podemos transmitir que vale a pena a liberdade e lutar por ela, e que foi essa mesma liberdade que o 25 de Abril nos trouxe em 1974 e me dá a possibilidade de aqui estar a escrever o que penso. Que nos trouxe a democracia onde, em liberdade, posso escolher quem quero que me governe e que devo respeitar quem escolha de maneira diferente.
Se soubermos, tão só, transmitir aos nossos descendentes estes valores, podemos então dizer que se cumpriu o essencial de Abril!

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