Chile

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

A memória recupera da morte o sentido da inutilidade. Da incapacidade de respondermos com as armas da coragem à sombra vergonhosa da violência e da morte. Só me lembro de gritarmos a mil vozes que Portugal não seria o Chile da Europa, quando se procurava construir um país novo saído da vergonha do medo. Calcorreávamos, incógnitas vozes e passos apressados, avenidas abaixo, ruas acima, braços no ar, gargantas saídas não se sabe de onde, trazendo a consciência de um dever cívico indignado na distância daquele país do outro lado do oceano. Era o Chile de um oceano sem dimensão para quase todos que ali estávamos. Quantas e quantas vezes abominámos o símbolo de repressão, do terror ao totalitarismo, que Pinochet representava. Naquele país que queria ser novo, cantando os mais puros hinos à liberdade, e que apenas conhecíamos das sacas do sulfato de cobre. O Chile era uma espécie de referência, dos medos do nosso país pequenino a crescer. Nas canções de Vítor Jara; na coragem de Salvador Allende. Pensava-se aquele país longínquo e via-se que alguém tinha roubado às mãos brancas e suaves de todas as mães do mundo os seus filhos imberbes e a acreditar na esperança; milhares e milhares de seres sonhadores cujo único crime cometido era acreditar que a felicidade era possível com a Liberdade. Sem “ismos” nenhuns, sem mais nada! Mas houve alguém que amordaçou esse sonho. De uma forma animalesca, traiçoeira, desumana. Arrasando o mais pequeno respirar dos homens de coragem que souberam dizer não à morte quando ela se ofereceu crua. A morte apaga. Mas também reacende as imagens adormecidas. A simplicidade do desaparecimento de Pinochet, traz a memória da sua bestialidade. Mas acima de tudo da injustiça da justiça e do medo que nos arrasta no nosso quotidiano. Nunca foi julgado pelos crimes que cometeu. Nunca. Nem ele nem a quase totalidade dos seus sanguinários generais. Porque a Justiça é lenta. Porque a coragem se arrasta pelos meandros dos segredos dos tribunais. Porque há impunidade. Pinochet, que os amigos americanos abandonaram por discordarem da sua falta de respeito pelos direitos humanos, depois de o financiarem e apoiarem militarmente na organização e realização do golpe de Estado, em 1973, faleceu. Mas a sua morte não pode alimentar mais nenhum silêncio. É necessário que vinguemos as lágrimas dos inocentes roubados à fome da vida. Ajudemos a recuperar a memória da Liberdade acusando o animal adormecido.

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