Cereal killer

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Era um dia como outro qualquer, de Agosto, diga-se, que isto de ser um dia de Agosto como outro qualquer não é o mesmo que ser um dia de Novembro como outro qualquer. Num campo de milho do Algarve a luta estava prestes a começar. De um lado pouco mais uma centena de pessoas; do outro 50 hectares de milho geneticamente modificado, propriedade privada de um pequeno agricultor de Silves, Algarve, região que se declarou livre de transgénicos em 2004. De foice em punho, encapuzados e protegidos por máscaras, os jovens, sob o olhar atento da GNR, invadem a propriedade e lançam-se à ceifadela às futuras broas do milho. Conseguiram devastar um hectare, 49 ficaram para contar a história do “cereal <i>killer</i>” da Herdade da Lameira.
O caso, daquela que terá sido a primeira acção directa de desobediência civil em defesa do ambiente em Portugal, levantou várias polémicas. O acto, que o ministro da Administração Interna apelidou de “ecoterrorismo <i>soft</i>”, levantou o problema da invasão da propriedade privada e da desobediência civil, levou com as acusações do PSD de passividade da GNR e tardio pronunciamento do Executivo sobre o acto, lá teve de vir o Presidente da República pedir uma investigação sobre a invasão da propriedade privada, e, as mais giras: a suspeita do Governo (uuuhhhh!) de que o Instituto Português da Juventude pudesse ter financiado o evento, a Ecotopia 2007, de onde terá sido congeminada a acção; e a manifestação de simpatia perante o “acto simbólico”, por parte de Miguel Portas, que fez com que Rui Pereira viesse pedir satisfações ao Bloco de Esquerda sobre se andava para aí a incentivar, “por trás”, estes jovens.
Enfim, e digo eu, algo vai mal no reino de Portugal, porque no meio desta confusão toda que se armou, se calhar também só porque é Agosto e o caso Maddie nunca mais tem desenvolvimentos que façam manchete, não se discutiu nunca aquilo que, acreditando que tenha sido esse o motor da acção activista, importaria: os alimentos geneticamente modificados e se Portugal quer, ou não, a manipulação do milho, actualmente o único alimento cultivado geneticamente no País.
E, afinal, o que ficou deste ataque? A imagem de meia dúzia de “terroristas” jovens e desocupados a destruir a plantação do senhor agricultor que se esfalfa a trabalhar no cultivo de milho e um lamiré de alguma polémica política, não em torno dos alimentos geneticamente modificados, mas do acto em si. Eles deram o mote, a comunicação social agarrou-se com unhas e dentes à imagem do <i>hippie </i>a destruir. O que resultou deste ataque não foi uma discussão séria, porque isso sim se exige, sobre os alimentos geneticamente modificados, foi antes mais uma parolada à portuguesa e algumas opiniões mais ou menos “engraçadas”.
O Ministério da Agricultura divulgou no final do mês de Julho a lista das culturas de milho geneticamente modificado em Portugal. Em Portugal existem 27 concelhos que se declararam livre de transgénicos, dos quais fazem parte, no Baixo Alentejo, os concelhos de Moura, Odemira e Mértola, apesar de nenhum ter pedido o reconhecimento oficial ao Governo. No Alentejo existem cerca de 2 500 hectares de plantações legais de milho transgénico. Se são algumas delas nestes concelhos, não faço ideia, na listagem do Ministério da Agricultura não vêm indicadas as localidades onde se verificam as plantações, apenas os nomes das herdades. Talvez fosse bom sabermos, e já agora se não estão a contaminar plantações vizinhas. Talvez depois possamos fazer qualquer coisa, sem <i>killer, of course</i>.

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