Casa do Alentejo

Sexta-feira, 8 Janeiro, 2021

Vítor Encarnação

escritor

Houve tempos na minha vida em que, estudante universitário, perdido na cidade, eu ia matar saudades dos meus. E mesmo não os conhecendo, sabia que eram os meus, sabia que vinham daquela terra imensa de onde eu vim, reconhecia-os logo.

Às vezes, muitas vezes, ia sozinho quando descia a Rua do Jardim do Regedor. Ia ao encontro de um chamamento, ia equilibrar a perda, ia à fonte beber água e encontrar um raminho verde, ia regressar a Casa. E ao subir as escadas eu passava logo além do Tejo e deixava de estar sozinho, deixava de me sentir sozinho.

Degrau a degrau, subia até mim, chegava ao meu princípio e ao meu fim, apurava os meus sentidos e recomeçava a viver.

O silêncio da Casa era o silêncio das minhas planuras, dos meus corgos, dos meus montados. As paredes eram as paredes da casa da minha avó, eram as paredes da minha infância de Ourique e do Campo Branco. E as janelas eram as janelas da minha paisagem de flores e lonjura. E as pessoas eram as pessoas das tabernas e das procissões da Senhora da Cola e da Feira de Castro. E as vozes eram as vozes dos homens de boina e das mulheres de luto. E as palavras eram ditas de uma maneira que eu percebia. Eram transparentes, escorreitas, feitas da massa da minha pronúncia, eram a côdea de um pão acabado de cozer num forno de lenha de azinho. E os aromas eram perfumes de poejos, de hortelã da ribeira, de coentros, de orégãos. E os sabores ficavam a bailar na boca ao som de uma viola campaniça.

Bastava-me uma açorda e um copo de vinho. Uma açorda e um copo de vinho matavam-me a fome de tudo.

Sempre que lá voltava levava comigo as últimas andorinhas, as derradeiras calmas, o restolho cansado, o alvor das romãs, a sede das ribeiras, o destino cadente das folhas, o esmorecer da claridade, a maturação das uvas, a inquietação do vento, a pressa das azeitonas, a ansiedade das ervas, o prenúncio das bolotas, a semente do Outono, a antecâmara do frio, o código das nuvens, a chave da porta do sol, a cal dos montes, o desassossego dos porcos. Levava comigo os meus mortos, a água do poço, os figos maduros, as fisgas, as pedras e os pássaros, as noites ao relento, as noites ao fogo, todas as lembranças.

A Casa do Alentejo é importante, absolutamente importante, porque precisamos de guardiões da memória e de defensores da identidade que tomem conta da arca dos tesouros que não pode ficar fechada porque as memórias não são mais do que os códigos genéticos das nossas vidas, o fermento da nossa essência.

Uma região que renegue o seu passado não terá futuro. Ficará órfã, perderá rumo, não terá farol, caminhará às escuras. Se não houver uma transição de conhecimentos, de tradições, se não for feita uma passagem de testemunho, uma respiração cultural boca a boca, morre quer o passado, quer o futuro. Perde-se o presente. Uma região não pode perder a sua memória, os homens e as mulheres que a habitam têm de ser os seus fiéis depositários.

Para que a identidade não se perca, o Alentejo tem de manter viva essa memória e legá-la aos seus descendentes, porque ela é o sopro da vida, porque a Casa do Alentejo será o sopro da vida dos alentejanos da diáspora.

Temos de fazer o caminho que os que aí estão fizeram há muitos anos, passar a ponte que eles construíram e entrar na cidade onde o Alentejo tem uma Casa que é pertença de todos nós.

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