Carta de mim a alguém

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Não vai longe o tempo em que, coberta do encantamento feliz com que sempre nos cobre a infância, o mundo chegava até mim peneirado pelo delicioso filtro da ingenuidade. A realidade era então para mim uma transfiguração do mundo que acontecia permanentemente dentro dos meus olhos impolutos e desconhecedores – e a vida era um oceano incomensurável de possibilidades. Naturalmente, e como sempre convém à sobriedade que chega com o advento da idade madura, as possibilidades que pareciam de facto inesgotáveis foram afunilando, desvaneceram-se levemente pelos interstícios dos anos, implodiram sozinhas tão silenciosa quanto necessariamente. Hoje, solenemente, sombriamente, posso não saber congeminar um enredo fantástico entre um urso de peluche e uma caixa de cartão, mas sei discorrer longamente sobre assuntos importantes, de olhos semicerrados e confiando a barba que não tenho. Hoje, com o orgulho emproado e balofo que nos incha de uma satisfação interior, talvez pertença já ao grupo das pessoas que, tendo cegado para a verdade das coisas, se leva infinitamente a sério. É pena – talvez tenhamos mesmo qualquer coisa de muito especial a aprender com as almas sem vícios que, mais ou menos longinquamente, pela certa fomos.
Não é difícil escolher as palavras que saibam designar com propriedade aquilo que sinto em relação a este estado de coisas – difícil, sim, é escolher umas que, pelo desgaste do uso a que têm por estes dias vindo a ser acometidas, não soem à trivialidade de coçados lugares comuns. Direi talvez que, se no grande caldeirão onde se confeccionam os sentimentos humanos, puséssemos nacos de angústia, deixássemos a marinar com algum receio, e acrescentássemos por fim quantidades generosas de estupefacção, talvez o resultado se aproximasse minimamente do sentimento almejado.
Passa-se que, não sendo conhecedora profunda dos rebuscados desígniso económico-político-financeiros por que se regem os destinos dos países, nem tendo a pretensão de avançar com moralismos baratos que encubram a minha própria inércia, sou todavia cidadã deste país, e nessa qualidade não posso deixar de, de forma mais ou menos válida, produzir a minha opinião. (A este respeito, noto com alguma apreensão, e não escondo que, ocasionalmente, com algum divertimento, que as tempestades de informação que vão por estes dias povoando os noticiários e a imprensa de todo o tipo estão a produzir uma espécie nova e curiosíssima de entendidos – aqueles que, apanhando de aqui e de além as palavras chave que andam hoje na boca de toda a gente, recolhendo deste e do outro fragmentos de opinião que depois de juntos fazem a sua própria, sabem falar doutamente de tudo, percebendo absolutamente de nada. Será talvez esta a mais pérfida espécie de ignorância – a ignorância que se desconhece a si própria). E assim, por força das actuais cirscuntâncias e como de outro modo não seria de esperar, ando legitimamente preocupada com este porto nevoento em que o meu país aportou. Bombardeiam-me com notícias devastadoras sobre os mercados financeiros – e eu inquieto-me como me pedem. Imergem-me em números assombrosos de importâncias tão astronómicas que não encontram significado na minha escala – e eu reajo na proporção. Assolam-me com torrentes de discursos consternados – e em mim produz-se , à sua imagem e semelhança, a consternação que é devida. E assim o meu viver deste histórico momento que atravessamos balanceia docemente ao sabor do que me querem fazer crer, e não creio estar em erro quando penso que, comigo, milhares de outros cidadãos andam por estas conturbadas águas navegando à mercê da informação que se nos apresenta já de forma totalmente acabada. Pronta a consumir. Ver, ouvir, acreditar, assimilar, reproduzir – a receita do acriticismo. Creio não estar em erro quando penso que, comigo, milhares de outros cidadãos estão a ser consentida e brutalmente moldados. Vamos todos cegamente no rasto uns dos outros, ainda que ninguém saiba verdadeiramente quem caminha na dianteira.
Não sou – lamento-o – nem tenho a pretensão – reitero-o – de ser entendida na situação político-económico-financeira, e de todas as mais palavras que queiram acrescentar-se em hífenes intermináveis para designar tão somente o estado em que nos encontramos, não sou de todo legítima conhecedora deste momento profundamente complexo. Creio, no entanto – com um crer muito visceral e íntimo – que nos escapa neste momento qualquer coisa de muito fundamental. Parece-me verdadeiramente que andamos todos desviados do que me parece ser a essência de tudo; como que iludidamente ocupados do acessório e cegos para o essencial.
Hoje, parece-me, não é o tempo de ir fazer a revolução para a rua. Não creio na utilidade de hordas de gente agitando ideais sem forma, eximindo culpas, nobres delatores de um problema cuja solução não pode vir senão deles. O barulho nas ruas soa a sucedâneo barato de revoluções passadas – como que a extrapolação infantil para hoje de um tempo que não é o de hoje. Hoje, parece-me, é o tempo da revolução interior – silenciosa, sensata, determinada e prudente; a operar-se organicamente dentro de todos e de cada um de nós.
Fico triste – triste de uma tristeza pincelada com laivos de desilusão – quando ouço, como sempre-a-mesma monotonia invariável, as palavras inchadas das pessoas importantes. Triste porque não lhes reconheço substância alguma, ou conteúdo algum que as faça de facto valer a pena, mas tudo me soa a querelas de crianças embirrentas que, em vez de monossílabos, articulam palavras como “défice”, ou “crise da dívida soberana”, ou, ainda melhor, estrangeirismos que, aparte do seu significado, veiculam um dramatismo muito mais adequado à gravidade da situação. Também não vai longe o tempo em que, face à incompreensão pueril com que pasmava para o mundo, gravatas e um discurso inflamado eram razões suficientes para me fazer não duvidar da justeza e da credibilidade de quem o proferia.
Parece-me ainda, definitiva e derradeiramente, que nos está a escapar esta primitiva e capital verdade – é que tudo vai em nós. Deixemos de culpar os políticos, e as classes de quem manda, por tudo o que de mau nos acontece. Deixemos de parte o conforto da terceira pessoa, e passemos do impessoal e descomprometido “eles” para a responsabilidade de um “nós”. Não nos demarquemos de tudo o que se vai passando – afinal, se assumir-mos que, dos dez milhões que somos, não mais do que uma vintena de nós é responsável pelo ponto em que estamos, em que posição de incompetência e desinteresse absoluto é que isso nos deixa, enquanto cidadãos? Não nos esqueçamos – somos a “massa” de que o país é feito, a matéria-prima em que tudo nele se alicerça – como podemos, então estar tão desviados dessa magnânime importância em que não nos reconhecemos? Deixemos de pôr de fora do problema e passemos a trabalhar na solução. É que, não estando funamente instruída nas características das forças que movem o mundo, não me aprece que haja nada de muito mais poderoso do que a vontade de um povo.
Hoje é o temo de nos reinventarmos. Invistamo-nos verdadeiramente – qualquer que seja a nossa causa.

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