Carta ao Pai Natal (com algum tempo de atraso)

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Pai Natal: não deixes que o atrasado da data te iluda quanto à importância do que te escrevo. Reservo-me o direito de saltar os preâmbulos maçadores cheios de adjectivos carinhosos, querido, adorado, muito prezado, esses que se destinam a afagar o teu ego de todo poderoso natalício. Estou certo de que o teu amor e a tua justiça para com todas as crianças não dependem da retórica que os infantes invistam na difícil empresa de te agradar. Assim sendo, Pai Natal, liberto-me de constrangimentos e digo-te com toda a clareza aquilo que me moveu no querer escrever-te esta carta; sei que os teus sentimentos são bons e não tenho por isso a temer nenhum tipo de retaliação (e que ela venha a existir, ainda assim, sempre em todos os tempos houve os que sacrificaram o seu bem em prol do bem dos vindouros). A verdade, Pai Natal, é que não estou nada satisfeito com a maneira como tens encarado a tua profissão e a tua actividade, coincidentes as duas com o teu propósito, nem tão pouco com a forma negligente com que tens levado a cabo a tarefa de que és o único e exclusivo responsável e que, por isso, se vê assim necessariamente comprometida quando não és competente no desempenhá-la. Acresce a tudo isto a evidência incontornável de que, – arrisco-me a dizer – como nenhum outro trabalhador no mundo, teres tu o ano inteiro subtraído de um dia apenas (e desse apenas a parte da noite) para poderes dedicar à reflexão funda da tua actuação e à preparação minuciosa de tudo o que há para ser preparado. Questiono-me, aliás, e com sincera curiosidade, como ocupas tu o teu ano em todo o tempo que sobra depois da consoada (essa que, de resto, te rouba apenas umas poucas horas da madrugada); e com a exigência da missão de que estás incumbido tão temporalmente limitada não se pode tolerar que a não cumpras exemplarmente. Antecipadamente me condeno pela rudeza destas palavras que te dirijo, mas a verticalidade e o carácter não devem compadecer-se nem da mais impoluta e inatacável criatura.
Pecas por excesso de brandura, Pai Natal. Escreves a tua própria sentença à força de seres assim bonacheirão e indolente, conformado com tudo o que acontece, impassível perante as fatalidades que te são impostas pelo devir dos tempos. Aceitas tudo com o mesmo gargalhar troante, e tudo submetes à lei geral do teu sorriso generoso e largo. Não posso compreender, Pai Natal, nem quero sequer que a minha compreensão seja algum dia capaz desse entendimento, que toleres assim tão oferecidamente o facto de toda a gente deixar de acreditar em ti à medida que se aproxima desse estado de elevação a que chamam de maturidade. Não posso suportar, Pai Natal, o conhecimento da tua indiferença estoica perante o desacreditar absoluto para que te vai remetendo a miudagem à medida que cresce. Uns mais cedo, outros mais tarde, todos acabam por rir-se da possibilidade ridícula de seres, e todos terminam por encaixotar-te num mesmo depósito de ilusões passadas. És talvez neste mundo a criatura que maior número de vezes morre, em tempos sucessivamente diferentes mas sempre inevitavelmente, e que no entanto permanece viva segundo as normas e atributos próprios da existência, e temporariamente viva no imaginário daqueles que ainda acreditam. Impõe-te, Pai Natal!, prova-lhes com obstinação que existes e que não devem deixar de acreditar em ti, apresenta-te triunfalmente diante dos seus olhos incrédulos, mostra-lhes que já estiveram certos e que incompreensivelmente acabaram por escolher o erro. A existência é possivelmente a última coisa de que nos é permitido abdicar, a condição fulminante e necessária a que tudo se submete; e se, como parece, é no pensar que está a garantia do existir, não devem restar-te dúvidas de que é imperioso que te batas pelo direito a ser.
Na tua comitiva, de que és o símbolo máximo e o representante por excelência, pela certa ninguém ousa chamar-te a estas e outras razões, temendo talvez que isso se confunda com um descrédito desconfiado da tua idoneidade. Posso quase garantir, Pai Natal, que também eles se sentem desanimados pela evidência consumada de que toda a gente vos desacredita, e nem eles passam de extraordinárias confabulações que nascem temporariamente nas terras das mentes que ainda estão férteis, nem tu és outra coisa senão uma ilusão vermelha e paternal de que se hão-de as crianças vir a rir quando chegar o tempo de perceber tudo (ou, por outra, o tempo de começar a não perceber nada). É esta a crueza da tua verdade: tornaste-te numa conveniência sazonal, um entretenimento disponível e descomprometido, qualquer coisa que vem, passa e não fica, e que por isso é nada. Deixas que te criem e que te matem com a mesma alegria anciã com que pasmarias para uma felicidade qualquer, e não percebes, Pai Natal, não percebes que com o deixar de acreditar em ti se perdem também outras crenças de inestimável valor. Não te suponho tão presunçoso assim que julgues que nas humanas conformações se criou propositadamente um espaço destinado exclusivamente a acreditar em ti, e que, suprimido ele, a competência para te crer seria a única faculdade afectada. Não: fica sabendo, Pai Natal, que no homem e nas suas interioridades tudo está incompreensivelmente interligado, e, como quando descascas uma maçã sempre se vai embora parte da polpa que não te conviria desperdiçar, também quando se deixa de acreditar em ti se vão embora outras vontades que depois não podem jamais voltar a ter-se. A ilusão desgraçadamente perdida.
Assim, Pai Natal, nesta carta propositadamente atrasada procuro dizer-te que não te conformes com uma existência natalícia tão redutora, nem tão pouco com a inexistência absolutamente castradora para que tens vindo a ser desdenhosamente remetido. Não te deixes converter numa massa de gordura resignada e sorridente que assiste impassível ao desmoronar de si perante si próprio; não sejas cúmplice deste fratricídio em que o sonho apunhala a ilusão e os dois caem, mortos, esvaziados da vida e arredados dela. Amesquinhas-te submisso perante a descrença da humanidade quando devias estar a ser o professor dela, Pai Natal; e é esta a minha inquietação. O poeta disse que é urgente o amor porque, certamente, há-de ter dado todo o que tinha e mesmo assim não lhe chegou para colmatar as precisões do mundo. As crianças, as que ainda sabem, acreditam-te talvez como o poeta que lho trará inteiro. E tu, Pai Natal, acreditas nas crianças?

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