Cantar…[BR]Abril e Maio

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

Nos 36 anos da madrugada libertadora do 25 de Abril, estamos colocados perante desafios que tocam directamente os fundamentos da celebrada “revolução dos cravos”.
Abril abriu as portas de uma cultura de cidadania responsável: direitos e deveres, em vez da velha pose do “Zé-povinho” de chapéu na mão, da pedinchice, da caridadezinha, da inveja, da intriga, da cunha e do compadrio, da delação miserável, da canalhice, da bufaria…
De entre mil cantigas de Abril vem-me à memória uma frase batida: “Só há Liberdade a sério quando houver a Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação, quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir…”
A lírica de Sérgio Godinho, um dos mais próximos companheiros do Zeca, traduz na perfeição o espírito e o conteúdo das principais conquistas de Abril e aborda também um tema da maior actualidade: a defesa dos serviços públicos, sob a ameaça do turbilhão neoliberal.
A Paz, de novo ameaçada pelas guerras imperiais: a do Iraque, longe de estar extinta, até ao Afeganistão, ao Líbano ou à Palestina e onde quer que os interesses hegemónicos estejam em causa.
O Pão que falta cada vez mais, com o ataque aos salários reais, o Código Anti-Trabalho, a precariedade. O pão, à míngua do qual morrem milhões de vítimas da inconcebível crise alimentar, num mundo em que as desigualdades nunca foram tão grandes.
A Habitação, direito consagrado na Constituição longe de estar assegurado, não por causas naturais como as da Madeira, mas sim devido à ausência de políticas públicas coerentes de habitação e reabilitação urbana, à cedência dos poderes centrais e locais perante as negociatas da construção desregrada e à especulação imobiliária que está na raíz da crise financeira mundial.
A Educação, tão mal tratada pelos governos Sócrates e a Saúde, área em que Portugal ainda ocupa um invulgar 11.º lugar a nível mundial devido ao Serviço Nacional de cobertura universal, hoje em perigo de desarticulação devido à falta de profissionais e sob a gula de apetites privados.
A fúria privatizadora do PEC está a chegar a serviços desde sempre públicos, como os comboios e os CTT, essenciais para garantir as comunicações no conjunto do território e a igualdade de acesso nas regiões afastadas dos grandes centros. A submissão a objectivos de lucro fácil arrastaria o fecho de mais estações de comboio e/ou de correio, a juntar ao da escola, do posto médico, etc., podendo significar o golpe final da desertificação de muitas aldeias do Alentejo cujas populações recebem as magras reformas pelos CTT, o único “banco” que conhecem.
Nos ásperos tempos que vivemos, Abril é tempo de resistência que se projecta em Maio. Não só no Dia do Trabalhador, mas também na greve que os mineiros da Somincor retomam com mais força, de 5 a 11 de Maio, perante a intransigência negocial duma administração de má fé.

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