Caim, disse Saramago

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

José Saramago pegou numa das mais controversas figuras da Bíblia e escreveu um romance onde “desendeusa” a figura de Deus e banaliza o “acto religioso” da criação humana. Da mesma forma, dá ao Homem o poder natural de dominar a vontade de Deus na vida e na morte. Caim morrerá de morte natural e só a lei dos Homens pode, afinal, decidir sobre o que fazer com o “pecado”, mesmo quando ele é um fratricídio, uma categoria de crime onde a natureza humana mais se sente fragilizada, seja qual for a origem do conceito cultural e/ou civilizacional. De mestre, este romance… Como só ele sabe. E demonstrando uma vitalidade impressionante para quem entrou na casa dos oitenta, José Saramago dá à estampa um romance delicioso, que se lê de um trago, aparentemente da mesma forma que foi escrito. Ao que parece, o octogenário Nobel escreveu este Caim nuns parcos quatro meses. Caricaturando, eventualmente a esta rapidez deve-se algum receio pelo Altíssimo. Não fosse ele impedir o escorrer leve da pena. Ao romance saído esta semana, ao qual não se fizeram esperar ataques de vários quadrantes, juntaram-se algumas afirmações do escritor, propondo que o livro fosse arrumado de forma que só alguns a ele tivessem acesso, considerando que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Duma forma quase imediata, a instituição Igreja responde a Saramago. Vociferando, espumando, agarrando-se aos pilares de uma religião, de uma filosofia, de uma crença, que necessita, rapidamente, de se questionar e de justificar a sua existência. De encontrar respostas que sirvam para explicar ao mais comum dos mortais a necessidade da Igreja na vida moderna e, acima de tudo, o papel que ainda pretensamente ainda representa na sociedade portuguesa. José Saramago coloca mais uma vez o dedo na ferida quanto à razão de ser da religião e coloca questões pertinentes no que se refere, em particular, à verdade histórica que legitima as instituições “religiosas”, que importam ser ponderadas e respondidas de uma forma credível e justificando as incongruências cientificas que a enformam. Pois é Saramago… serás tu o próprio Deus a experimentar o teu rebanho? Fico à espera para ver. Até ao último instante desta minha eternidade.

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